Política Internacional — CACD 2004
CESPE/UnB · CACD – 1ª fase (TPS) · 20 itens · julgue cada item como Certo ou Errado
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Cadastre-seA estrutura do Breve Século XX parece uma espécie de tríptico ou sanduíche histórico. A uma era de catástrofe, que se estendeu de 1914 até depois da Segunda Guerra Mundial, seguiram-se cerca de 25 ou 30 anos de extraordinário crescimento econômico e de transformação social, anos que provavelmente mudaram de maneira mais profunda a sociedade humana que qualquer outro período de brevidade comparável. Retrospectivamente, podemos ver esse período como uma espécie de era de ouro, e assim ele foi visto quase imediatamente depois que acabou, no início da década de 70. A última parte do século foi uma nova era de decomposição, incerteza e crise — e, com efeito, para grandes áreas do mundo, como a África, a ex-URSS e as partes anteriormente socialistas da Europa, de catástrofe. À medida que a década de 80 dava lugar à de 90, o estado de espírito dos que refletiam sobre o passado e o futuro do século era de crescente melancolia fin-de-siècle. Visto do privilegiado ponto de vista da década de 90, o Breve Século XX passou por uma curta era de ouro, entre uma crise e outra, e entrou em futuro desconhecido e problemático, mas não necessariamente apocalíptico.
Eric Hobsbawm. Era dos extremos – O breve século XX (1914–1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 15–6 (com adaptações).
Em face das informações apresentadas no texto acima e considerando aspectos históricos marcantes do século XX, contingenciadores da política internacional praticada no período, julgue os itens seguintes.
- 1.
Em que pese a agressiva retórica protecionista expressa por quase todos os países, as duas últimas décadas do século passado assistem à plena abertura dos mercados. Era a economia deixando de ser internacional para se tornar efetivamente mundial, o que exigiu o fim de instâncias reguladoras do comércio, como foi o caso do GATT.
- 2.
Em 1944, representantes de 44 países — entre os quais o Brasil — reuniram-se em Bretton Woods com o objetivo de criar mecanismos que livrassem o mundo de crises globais, a exemplo da decorrente da Primeira Guerra e, em especial, da Grande Depressão dos anos 30.
- 3.
No pós-Segunda Guerra e ao longo dos anos 50 do século XX, coincidindo com a “era de ouro” mencionada no texto, o sistema de Bretton Woods funcionou sem maiores atropelos. Contudo, na década de 60, ele começou a ser fortemente pressionado em função, sobretudo, do déficit em conta-corrente que os EUA passaram a registrar, processo acelerado em larga medida pelas despesas com a guerra no Vietnã.
- 4.
Em 1973, a guerra entre árabes e judeus é um dos símbolos do fim da “era de ouro”. Sofrendo os efeitos da desvalorização do dólar decidida em 1971 (governo Nixon) e ante o apoio norte-americano a Israel, os países árabes quintuplicam o preço do barril de petróleo, o que gera efeitos devastadores nas economias ocidentais.
- 5.
Em uma economia que se globaliza rapidamente, a formação de blocos regionais é justificada como caminho adequado à melhor inserção internacional de seus integrantes. Nessa perspectiva, a União Européia, criada já como mercado comum pelo Tratado de Roma, de 1957, é o melhor exemplo de integração rápida, abrangente e completa que se conhece.
Cinco paradigmas históricos foram identificados na História da Política Exterior do Brasil, de Amado Cervo e Clodoaldo Bueno, correspondendo cada um deles a uma periodização, com a qual se procurou inserir a conjuntura nas estruturas históricas e articular micro- e macro-história para se obter uma interpretação categorial e sistemática da evolução da política exterior do Brasil nos últimos dois séculos. Assim foram apresentados por Cervo e Bueno: a) o das concessões sem barganha da época da independência (1808–1828), pelo qual se sacrificou o interesse nacional sob múltiplos aspectos, com efeitos nefastos sobre a formação nacional até meados da década de 40 do século XIX; b) o da leitura complexa do interesse nacional, aliado à determinação de preservar o exercício soberano da vontade nacional (1844–1889); c) a diplomacia da agroexportação e dos grandes alinhamentos com que a República, que subordinaria o serviço da diplomacia aos interesses do segmento interno socialmente hegemônico, particularmente plantadores e exportadores de café (1889–1930); d) o modelo de política exterior do nacional-desenvolvimentismo que acoplou, finalmente, a face externa da política às demandas do moderno desenvolvimento, dos anos 30 à década de 80 do século XX; e) a dança dos três paradigmas disponíveis simultaneamente, no tempo mais recente da política externa do Brasil (os anos 90 e o início do novo século): o da sobrevivência limitada do nacional-desenvolvimentismo, o da expansão do liberalismo desenfreado e do Estado logístico, que equilibra os dois anteriores.
José Flávio Sombra Saraiva. Um percurso acadêmico modelar: Amado Luiz Cervo e a afirmação da historiografia das relações internacionais no Brasil. Apud: Estevão Chaves de Rezende Martins (Org.). Relações internacionais: visões do Brasil e da América Latina. Brasília: IBRI, 2003, p. 27 (com adaptações).
Tendo o texto acima como referência inicial, julgue os itens subseqüentes, relativos à política internacional e à inserção histórica do Brasil no cenário mundial.
- 6.
O apoio ostensivo da potência hegemônica de então, a Inglaterra, interessada na crescente abertura de antigos mercados monopolizados pelas metrópoles, explica a relativa facilidade com que o ato de independência do Brasil foi reconhecido pela comunidade internacional, sem a necessidade de barganhas, como informa o texto.
- 7.
O breve governo de Fernando Collor, o primeiro eleito diretamente desde Jânio Quadros, foi marcado por um vertiginoso processo de ultra-liberalização da economia brasileira, um modelo de inserção internacional que, com menor ou igual intensidade, muitos outros países latino-americanos colocaram em prática nos anos 90 do século passado.
- 8.
O primeiro período republicano no Brasil dá início à denominada diplomacia do café, a qual, mais que simples esforço de promoção comercial, também envolvia a negociação de empréstimos, além da defesa contra acusações de cartelização e abuso de poder dominante.
- 9.
O período governamental de Juscelino Kubitschek (1956–1961) optou por atender “às demandas do moderno desenvolvimento”, com níveis relativamente baixos de endividamento e de inflação. Seus projetos de apoio à indústria de bens de consumo e ao incremento da infra-estrutura econômica de que o país carecia se viabilizaram, em larga medida, pelo apoio recebido do Banco Mundial e pela extrema liberalidade com que foi tratado pelo Fundo Monetário Internacional.
- 10.
A independência do Brasil integra um processo histórico mais amplo, em que há nítida interseção entre a crise do Antigo Regime (na Europa) e a crise do Antigo Sistema Colonial (nas Américas). Ao fundo, mudanças estruturais advindas da Revolução Industrial e do decorrente processo de consolidação do capitalismo tornavam anacrônicas práticas como as estabelecidas pelo sistema de exclusivo colonial.
- 11.
A crescente predominância comercial, financeira e industrial dos EUA na economia brasileira, fenômeno visível já na primeira metade do século passado, ganhou redobrada intensidade após a Segunda Guerra Mundial, em especial a partir da década de 1950.
- 12.
O paradigma do nacional-desenvolvimentismo — que, lembra o texto, se inicia na década de 30 do século XX, com Vargas — sofre descontinuidade e, em determinados momentos, dá a impressão de ser claramente abandonado. É o que acontece, por exemplo, entre 1951 e 1954, quando Getúlio Vargas, acuado pela intransigente oposição interna e por uma conjuntura internacional desfavorável, abre mão de qualquer veleidade nacionalista tanto na condução da política econômica quanto na ação externa.
- 13.
O regime militar instaurado em 1964 reorientou a política externa brasileira, distinguindo-a profundamente daquela que a precedeu imediatamente. Daí, o alinhamento automático com a diplomacia norte-americana, procedimento que não sofreu variações significativas ao longo do período.
- 14.
Em que pese toda a efervescência política, que teve no impeachment de Collor e seus desdobramentos o seu ápice, o governo Itamar Franco conseguiu levar adiante as reformas relativas à privatização, à desregulamentação, à abertura comercial e à regularização das relações com a comunidade financeira internacional.
- 15.
As Tarifas Alves Branco, de 1844, cuja adoção coincide com o início do segundo paradigma da política externa brasileira, segundo a perspectiva do texto, geraram profundo desconforto nas relações Brasil–Inglaterra. Com efeito, já dominando o mercado brasileiro, aos capitais ingleses não interessava a decisão de Alves Branco de abrir o mercado nacional à livre concorrência mediante acentuada redução das alíquotas de importação.
É a partir de 1968 (II Unctad) que o Brasil passou a expressar apoio mais denso aos foros multilaterais, movido pela convicção de ser essa atitude o “meio de neutralizar ou reduzir o considerável poder de coerção das superpotências e grandes poderes nas relações internacionais”, como assinalou Antonio Augusto Cançado Trindade. Já para Clodoaldo Bueno, a continuidade seria o elemento definidor da política multilateral brasileira, a expressar o reconhecido grau de profissionalismo do Itamaraty. Para ele, a diplomacia brasileira teve tradicionalmente na ONU uma participação constante e cooperativa, fazendo do tema do desenvolvimento uma de suas preocupações centrais.
A partir dessas informações, julgue os itens que se seguem, relativos à inserção internacional do Brasil.
- 16.
Ao se afastar, em 2003, das tratativas em torno da implantação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), abrindo mão de co-presidir — com os EUA — a comissão negociadora do megabloco continental, o Brasil emitiu sinais claros de repulsa às práticas norte-americanas de subsídios, nomeadamente aquelas em vigor na área agrícola.
- 17.
Retraída no combate às práticas protecionistas dos países e blocos economicamente mais fortes, a atuação brasileira na OMC é dura na oposição às medidas unilaterais. Já no âmbito da ONU, defende um Conselho de Segurança mais democrático, embora ainda não demonstre desconforto quanto à forma pela qual ele foi organizado, quando da criação das Nações Unidas, refletindo a realpolitik do sistema bipolar.
- 18.
Enquanto o binômio segurança–desenvolvimento pautou, em linhas gerais, a política internacional implementada pelo regime militar, conferindo-lhe caráter mais defensivo, com a redemocratização do país, em meio ao novo cenário mundial surgido a partir de fins da década de 80 do século XX, o Brasil tratou de ampliar sua presença multilateral. Exemplos dessa estratégia seriam, entre outros, a realização da Eco-92 — no Rio de Janeiro — e a candidatura a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
- 19.
A criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que contou com ativa participação do Brasil, ocorreu em um contexto histórico amplamente favorável. Com efeito, é na década de 90 do século XX que a política brasileira para a África mais se robustece, com o sensível incremento das relações comerciais, diplomáticas e estratégicas entre o Brasil e os Estados africanos.
- 20.
A aproximação entre Argentina — governo Alfonsín — e Brasil — governo Sarney —, em meados dos anos 80 do século XX, foi o passo inicial para a constituição do futuro Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e se deu em um contexto de crise econômica nos dois países, recém-saídos de ditaduras militares.
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