História Mundial — CACD 2004

CESPE/UnB · CACD – 1ª fase (TPS) · 10 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

Quer responder e ver o gabarito comentado?

Na Lumen você marca Certo ou Errado, vê o gabarito e o comentário de cada item, acompanha seu desempenho por matéria e estuda pelo edital verticalizado.

Cadastre-se

Há algo que não se pode dizer do século XX: que foi um tempo de brumas, silêncios e mistérios. Tudo nele foi a céu aberto, agressivamente iluminado, escancarado e estridente. E, no entanto, ele é ainda um enigma — um claro enigma, parafraseando Drummond —, e dele não podemos fazer o necrológio completo. E porque findou como uma curva inesperada da história, em um astucioso desencontro do que achávamos ser o futuro, turvou nossa memória e nosso olhar. E tornou-se pedra e esfinge, com um brilho que ainda cega e desafia.

O século XX foi, sem dúvida, um século das utopias. O seu andamento coincidiu com a máxima expansão das categorias fundamentais do mundo moderno — sujeito e trabalho —, eixos que presidiram a atualização e exasperaram os limites do liberalismo e do socialismo, as duas grandes utopias da modernidade. E talvez por isso exiba uma característica única e contraditória: parece ter sido o mais preparado e explicado pelos séculos anteriores e, simultaneamente, o que mais distanciou a humanidade de seu passado, mesmo o mais próximo, decretando o caráter obsoleto de formas de vida e sociabilidade consolidadas durante milênios.

O século XX sancionou o Estado-nação como a forma, por excelência, de organização das sociedades em peregrinação para o futuro e em busca de transparência. Os Estados nacionais ergueram-se como personagens privilegiadas de uma história humana cada vez mais cosmopolita, para lembrar Kant, modificando de forma radical a paisagem do mundo. Com eles, o direito assumiu progressivamente a condição de um idioma universal, reagindo sobre o passado e destruindo velhas estruturas hierárquicas fundadas em privilégios e na tradição.

Mas o século XX não é apenas um tempo de esperanças. É também o século do medo e das tragédias injustificáveis. A dura realidade dos interesses provoca dois grandes conflitos mundiais, um tenso período de guerra fria e uma interminável série de guerras localizadas. Um século de violência dos que oprimem e dos que se revoltam.

Rubem Barboza Filho. Século XX: uma introdução (em forma de prefácio). Apud: Alberto Aggio e Milton Lahuerta (Org.). Pensar o século XX. São Paulo: Unesp, 2003, p. 15–9 (com adaptações).

Considerando o texto acima, julgue os itens seguintes, relativos ao cenário histórico do mundo contemporâneo.

  1. 1.

    Exemplos de violência não faltam neste século XX, classificado também no texto como o tempo “do medo e das tragédias injustificáveis”. Entre eles, podem ser destacados os artefatos nucleares e os fascismos, síntese incontrastável do que Hannah Arendt definiu como a banalização do mal.

  2. 2.

    O fato de a URSS de Stálin ter conseguido fabricar a bomba atômica, mas não a de hidrogênio, impediu que durante a fase de tensão mais pronunciada da guerra fria houvesse um equilíbrio entre as superpotências em termos de poder de destruição do inimigo, o que levou o governo de Moscou a manter uma atitude de prudente cautela em momentos críticos, como os ocorridos na Coréia (1951), Vietnã (1954) e Cuba (1962).

  3. 3.

    A moderna industrialização, a partir da Revolução Industrial inglesa, desvelou uma nova realidade histórica que o texto indica como visceralmente oposta ao que existia antes, tornando obsoletas as “formas de vida e sociabilidade consolidadas durante milênios”. Essa diferença manifesta-se, por exemplo, de modo “escancarado e estridente”, na mudança do locus tradicional da vida social — homens e mulheres fogem ou são expulsos do mundo agrário e rural para as cidades.

  4. 4.

    Uma “curva inesperada da história”, como diz o texto ao se referir à forma pela qual o século XX chegou ao fim, pode ser identificada na desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e no desmonte do denominado socialismo real do Leste europeu, sacramentando a morte de um sistema bipolar de poder mundial que vigorou, com maior ou menor intensidade, desde o pós-Segunda Guerra.

  5. 5.

    Liberalismo e socialismo, “as duas grandes utopias da modernidade”, como afirma o texto, encontraram seus limites à mesma época, ainda que por motivos e caminhos distintos. Com efeito, a crise social, política e econômica verificada nas décadas de 20 e 30 do século XX destruiu as bases do Estado liberal — substituído pelos modelos totalitários fascistas — e eliminou todo e qualquer apoio ideológico ao stalinismo soviético.

  6. 6.

    Quando o texto fala no direito assumindo “progressivamente a condição de um idioma universal” ao longo do século XX, certamente se refere, entre outros aspectos, ao surgimento da Liga das Nações e da Organização das Nações Unidas (ONU), ambas criadas a partir de pressupostos idealistas e razoavelmente apartadas do jogo de interesses e de manipulação do poder por parte dos Estados nacionais.

  7. 7.

    Os dois grandes conflitos mundiais do século XX tiveram origens e motivações distintas. Enquanto a Grande Guerra de 1914 teve, desde o início, caráter mundial, em função sobretudo do colonialismo europeu que estendia seus tentáculos por vários continentes, a Segunda Guerra circunscreveu-se ao palco europeu, malgrado ter contado com a participação de países americanos e asiáticos.

  8. 8.

    A guerra fria assinalou a fase de confronto entre as duas superpotências que emergiram da Segunda Guerra Mundial, tendo seu clímax após o anúncio da Doutrina Truman, pela qual os Estados Unidos da América (EUA) se dispunham a apoiar os países que resistissem ao comunismo.

  9. 9.

    Exemplos marcantes de guerras localizadas — de que foi pródigo o século XX, como lembra o texto — são as ocorridas no Oriente Médio, salientando o caráter estratégico da região, na qual se mesclam motivações de ordem religiosa, geopolítica e econômica, esta diretamente ligada às abundantes reservas de petróleo lá existentes.

É na visão retrospectiva que se descobrem as características (boas ou más) da cultura nacional, cuja originalidade não precisa ser proposta nem defendida, mas pode ser constatada e criticada. A liberdade de criação será maior se o artista, o escritor ou o pensador, como Machado de Assis e Clarice Lispector, não tiverem de criar uma arte, uma literatura ou um pensamento supostamente nacionais.

Uma tal perspectiva não significa abdicar do nacional em detrimento do universal, do local em detrimento do global, pois, se o universalismo pode ser visto como uma invenção eurocêntrica, a universalidade não tem centro. Embora desigual e assimetricamente, valores, idéias, expressões culturais e costumes — nacionais e locais — migram, farão isso mais freqüentemente com a maior facilidade das comunicações e sempre terão o potencial de universalizar-se. As obras de Machado e Clarice, sem deixar de ser brasileiras, são um claro exemplo dessa possibilidade de universalização.

João Almino. De Machado a Clarice: a força da literatura. Apud: Carlos Guilherme Mota (organizador). Viagem incompleta: a experiência brasileira (1500–2000) – a grande transação. São Paulo: SENAC, 2000, p. 79.

Tendo o texto acima como referência inicial e considerando os múltiplos aspectos da cultura, julgue os itens seguintes.

  1. 10.

    O Renascimento dos séculos XV e XVI, malgrado sua força criativa, não se enquadra naquilo que o texto classifica de universalismo como “invenção eurocêntrica”. A rigor, figuras como Camões, Shakespeare, Michelangelo, da Vinci, Rafael ou Miguel de Servet, entre tantos outros, expressam — na literatura, nas artes plásticas e na ciência — uma cultura não mais que local, desprovida de suficiente latitude para representar uma visão de mundo que transcendesse os horizontes europeus.

Quer responder e ver o gabarito comentado?

Na Lumen você marca Certo ou Errado, vê o gabarito e o comentário de cada item, acompanha seu desempenho por matéria e estuda pelo edital verticalizado.

Cadastre-se

Outras matérias do CACD 2004