Língua Portuguesa — CACD 2017

CEBRASPE · CACD – 1ª fase (TPS) · 40 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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Texto I

1 O ano de 1881 foi dos mais significativos eimportantes para a ficção no Brasil, pois que nele sepublicaram as Memórias Póstumas de Brás Cubas,4de Machado de Assis (saídas na Revista Brasileira, no anoanterior) e O Mulato, de Aluísio Azevedo. Com estes livrosse encerrava a indecisão da década de setenta, e tomavam7corpo duas das tendências nela delineadas, a da análise,prenunciada nos primeiros trabalhos do próprio Machadode Assis, e a naturalista, prefigurada principalmente pelo10Coronel Sangrado, de Inglês de Sousa, e por Um Casamentono Arrabalde, de Franklin Távora. A terceira, a regionalista,só um pouco depois ganharia feição mais nítida.13 No momento, impressionou muito mais a novidadedo Mulato — sob muitos aspectos ainda tão preso àsdeformações românticas — do que a do Brás Cubas,16muito mais completa e audaciosa. É que aquele não só traziaum rótulo em moda, como, parecendo revolucionário ede fato o sendo pelo tema, continuava a velha linha nacional19de romances que encontravam na descrição de costumes o seucentro de gravidade; foi por isso mais facilmente entendidoe admirado. Pelos livros de Zola e Eça de Queirós, estavam22o meio intelectual e o público que lia preparados para receberafinal uma obra naturalista brasileira, que na verdade se faziaesperar, ao passo que nada os habituara de antemão à nova25maneira de Machado de Assis, já que nenhum críticovislumbrara as sondagens psicológicas escondidas sob os casossentimentais que até então de preferência contara. Toda a gente28se deslumbrou — ou se escandalizou — com O Mulato,sem perceber que o espírito de inovação e de rebeldiaestava mais nas Memórias Póstumas de Brás Cubas.31Aqui, ousadamente, varriam-se de um golpe o sentimentalismo,o moralismo superficial, a fictícia unidade da pessoa humana,as frases piegas, o receio de chocar preconceitos, a concepção34do predomínio do amor sobre todas as outras paixões;afirmava-se a possibilidade de construir um grande livro semrecorrer à natureza, desdenhava-se a cor local, colocava-se um37autor pela primeira vez dentro das personagens; surgiam afinalhomens e mulheres, e não brasileiros, ou gaúchos, ou nortistas,e — last but not least — patenteava-se a influência inglesa em40lugar da francesa, introduzia-se entre nós o humorismo. A independência literária, que tanto se buscara,só com este livro foi selada. Independência que não significa,43nem poderia significar, autossuficiência, e sim o estadode maturidade intelectual e social que permite a liberdadede concepção e expressão. Criando personagens e ambientes46brasileiros — bem brasileiros —, Machado não se julgouobrigado a fazê-los pitorescamente típicos, porque aconsciência da nacionalidade, já sendo nele total, não carecia49de elementos decorativos. Aquilo que reputava indispensávelao escritor, “certo sentimento íntimo que o torne homem do seutempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos52no tempo e no espaço”, ele o possuiu inteiramente, comuma posse tranquila e pacífica. E por isso pôde — o primeiroentre nós — ser universal sem deixar de ser brasileiro.55 Todas essas qualidades, das quais algumas já sehaviam delineado nos livros anteriores do seu autor, fizeramdas Memórias Póstumas de Brás Cubas um acontecimento58literário de imenso alcance. Tanto no presente como nopassado alterava o nosso panorama literário, porque exigia arevisão de valores que, segundo T. S. Eliot, se dá cada vez61que surge uma obra realmente nova. Aplicando ao restritopatrimônio das letras brasileiras a fórmula empregada umplano muito mais vasto pelo crítico inglês, podemos dizer64que o aparecimento do Brás Cubas modificou a ordemestabelecida. (...) Descontada a parte do coeficiente pessoal — sem67dúvida a mais importante — a obra de Machado de Assisrevela que já possuíamos, no fim do Segundo Reinado,um organismo social melhor definido do que faria supor70a confusão reinante nos domínios literários entre o indivíduoe o meio físico ou o clã a que pertencia. (...) Abandonandoos episódios sentimentais a que até esse momento mais ou73menos se ativera, instalando-se no íntimo de suas criaturas,Machado de Assis descobriu seres cujas reaçõesespecificamente brasileiras não contrariavam o caráter mais76larga e profundamente humano. E, entretanto — tais são os erros de perspectivados contemporâneos —, o que a todos pareceu novidade79completa foi O Mulato, que inaugurava muito mais umamaneira literária do que um ângulo de visão diferente.O movimento naturalista a que deu início empolgaria os82escritores, marcaria com o seu sinete não apenas o decênioque começava, mas também em boa parte o que se lhe seguiria,enquanto que, na época, só Raul Pompéia se deixaria seduzir85pelas análises praticadas no Brás Cubas. Havia, porém,nesses dois livros de índole tão diversa, um traço comum:em ambos triunfava a observação.

Lúcia Miguel Pereira. História da literatura brasileira – Prosa de ficção – de 1870 a 1920. Rio de Janeiro: José Olympio/INL, 1973, 3.a ed., p. 53-5 (com adaptações).

Com relação a aspectos gramaticais do texto I, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 1.

    Sem prejuízo das informações originais do texto e de sua correção gramatical, o trecho “Abandonando os episódios sentimentais (...) larga e profundamente humano” (l. 71 a 76) poderia ser reescrito da seguinte forma: Ao abandonar os episódios sentimentais que até esse momento se tenha privilegiado e ao instalar-se no íntimo de suas criaturas, descobriu, Machado de Assis, seres em que reações tipicamente brasileiras não eram contrárias ao caráter humano no sentido mais largo e profundo.

  2. 2.

    Os sujeitos das formas verbais “varriam-se” (l.31) e “afirmava-se” (l. 35) estão elípticos, e seu referente é a obra Memórias Póstumas de Brás Cubas.

  3. 3.

    Em “Descontada a parte do coeficiente pessoal” (l.66), a palavra “coeficiente” foi empregada no sentido de fator, circunstância.

  4. 4.

    A retirada do pronome oblíquo na oração “ele o possuiu inteiramente” (l.52) preservaria a correção gramatical e o sentido original do texto.

Texto III

1 Escrita em prosa e verso, a Carta Marítima éformalmente um poema sui generis, que supera as divisõesconvencionais do discurso. Quanto à mensagem, tem elementos4de uma alegre sátira ideologicamente avançada parao acanhado meio português do tempo, na qual Sousa Caldascensura os privilégios e a vida materializada, presa a uma7educação artificial e obsoleta, sugerindo a regeneraçãoda sociedade por meio de uma transformação como aque lhe parecia estar em curso na França revolucionária.10No plano cultural, satiriza a tirania da herança greco-latinae aspira a algo diferente, que não formula, sendo porémsignificativo que enquanto menciona Homero como exemplo13de poeta desligado do real, fechado num mundo factício, louveum moderno, Cervantes, que assim privilegia como autorde obra-prima mais adequada ao tempo, e que de mais a mais16reforça o seu propósito na Carta, por ser ela própria uma sátiracontra costumes e convenções cediças. Portanto, já em 1790Caldas insinuava a necessidade de mudar os padrões, e o fazia19com mais força e originalidade do que faria seis anos depoiso francês Joseph Berchoux, na citadíssima e medíocre Elegiasobre os Gregos e os Romanos, onde os acusa de lhe22infelicitarem a vida. (...) A mudança sugerida na Carta levaria o tempo de umageração para acontecer. Mas mesmo sem propor novos rumos25Sousa Caldas contribuiria a seu modo, ao descartar no restoda obra a imitação da Antiguidade e voltar-se para os temasreligiosos, que o Romantismo consideraria mais tarde como um28dos seus timbres diferenciadores. Pelo fato de ter remontadona tradução dos Salmos à poesia bíblica, embora nada tenhade pré-romântico ele foi considerado mais ou menos precursor31a partir do decênio de 1830; mas é inexplicável queos românticos nunca tenham mencionado a Carta, quepoderia, na perspectiva deles, ser lida como verdadeiro34manifesto modernizador. Curioso a este respeito é o caso de Gonçalves deMagalhães, que publicou em 1832 o pífio volume Poesias,37encharcado da rotina mais banal daquele momento de exaustãoliterária, inclusive com recurso constante à mitologia clássica.Mas no ano seguinte escreveu que não queria mais saber dela,40por clara influência da Carta Marítima, imitada quaseritualmente numa Carta ao Meu Amigo Dr. Cândido BorgesMonteiro (datada do Havre, 1833), onde narra a sua própria43viagem à França. Vistas as coisas de hoje, isto parece umainflexão por influência de Sousa Caldas, antes da conversãoestética ocorrida em Paris e manifestada na revista Niterói.46Por que então nos escritos renovadores Magalhães nãomencionou esta sua precoce mudança de rota, nem mesmoquando se referia a Sousa Caldas? Difícil imaginar os motivos,49sobretudo quando pensamos que os primeiros românticosqueriam a todo custo encontrar precursores, evocandoDurão, Basílio, São Carlos e Sousa Caldas entre os principais.52Talvez porque para quem tinha andado de braço com as musasclássicas, como o Magalhães de Poesias, a carga mitológicada Carta Marítima parecesse, na hora de renovar,55incompatível com a nova moda. Por isso, não apenas deixoua sua própria Carta fora dos Suspiros Poéticos, mas sóse animou a publicá-la em 1864, no volume Poesias Avulsas58das suas obras completas, onde recolheu pecados da mocidade.No entanto, se a tivesse divulgado na altura da sua pregaçãorenovadora ela teria sido (apesar da péssima qualidade)61um argumento de certo peso no rastreamento de sinaisprecursores e da sua própria antecipação. (...) No rasto de Magalhães, os primeiros românticos64também puseram de lado a Carta de Sousa Caldas, que talveztenham mesmo treslido, sem perceberem a força renovadoraque está implícita na sua brincadeira profilática e faz dela67indício precursor de certos aspectos que o nosso Romantismoassumiria, sem deixar com isso de ser um documento,plantado no solo setecentista da Ilustração.

Antonio Candido. Carta Marítima. In: O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1998, p. 220-2 (com adaptações).

Com relação a aspectos linguísticos e textuais do texto III, julgue (C ou E) os seguintes itens.

  1. 5.

    Os adjetivos “pífio” (l.36) e “encharcado” (l.37) e a expressão “exaustão literária” (l. 37 e 38) são empregados, no texto, em sentido conotativo.

  2. 6.

    Com o emprego de construções como “Vistas as coisas de hoje” (l.43) e “Difícil imaginar os motivos” (l.48) e da forma verbal “pensamos” (l.49), o autor confere um tom impessoal ao texto.

  3. 7.

    A expressão “a este respeito” (l.35) retoma a ideia defendida no parágrafo anterior: Sousa Caldas contribuiu a seu modo para as mudanças na poesia do Romantismo, embora não tenha proposto caminhos novos.

  4. 8.

    Sem prejuízo das informações originais do texto e de sua correção gramatical, o trecho “No rasto de Magalhães, (...) sua brincadeira profilática” (l. 63 a 66) poderia ser reescrito da seguinte forma: Os primeiros românticos também ignoraram a Carta de Sousa Caldas; assim como Magalhães, não perceberam a força subjacente em sua brincadeira preventiva, e talvez eles mesmos a tenham lido às avessas.

Texto II

1 Dei em passear de bonde, saltando de um para outro,aventurando-me por travessas afastadas, para buscar o veículoem outros bairros. Da Tijuca ia ao Andaraí e daí à Vila Isabel;4e assim, passando de um bairro para outro, procurandotravessas despovoadas e sem calçamento, conheci a cidade —tal qual os bondes a fizeram alternativamente povoada7e despovoada, com grandes hiatos entre ruas de populaçãocondensada e toda ela, agitada, dividida, convulsionadapelas colinas e contrafortes da montanha em cujas vertentes10crescera. Jantava, uns dias; em outros, almoçava unicamente;e houve muitos que nem uma coisa ou outra fiz. (...)Abelardo Leiva, o meu recente conhecimento, era poeta13e revolucionário. Como poeta tinha a mais sincera admiraçãopela beleza das meninas e senhoras de Botafogo. Não faltavaàs regatas, às quermesses, às tômbolas, a todos os lugares16em que elas apareciam em massa; (...). Como revolucionário,dizia-se socialista adiantado, apoiando-se nas prédicase brochuras do Senhor Teixeira Mendes, lendo também19formidáveis folhetos de capa vermelha, e era secretáriodo Centro de Resistência dos Varredores de Rua. Viviapobremente, curtindo misérias e lendo, entre duas refeições22afastadas, as suas obras prediletas e enchendo a cidade comos longos passos de homem de grandes pernas. Depois de nossas relações, era frequente passearmos25juntos. Saíamos às dez horas, tomávamos café e andávamosaté as três ou quatro da tarde. A essa hora separávamo-nosem obediência a uma convenção tácita. Tratava-se de jantar28e cada um de nós ia arranjar-se. À tarde, encontrávamo-nose íamos conversar a um café com alguns outros amigos dele,na mor parte desprovidos de dinheiro, com magros e humildes31empregos, pretendendo virar a face do mundo para ter almoçoe jantar diariamente. Leiva era o chefe, era a inteligênciado grupo, pois, além de poeta, tinha todos os preparatórios34para o curso de dentista. Eu gostava de notar a adoraçãopela violência que as suas almas pacíficas tinham,e a facilidade com que explicavam tudo e apresentavam37remédios. Embora mais moço que ele, várias vezes chegueia sorrir aos seus entusiasmos. Creio que lhes não faltavainteligência, sinceridade também; o que não encontravam40era uma soma de necessidades a que viessem respondere sobre as quais apoiassem as suas furiosas declamações.Insurgiam-se contra o seu estado particular, oriundo talvez43mais de suas qualidades de caráter do que de falhasde temperamento. Eram todos honestos, orgulhosos,independentes e isso não leva ninguém à riqueza e à46abastança. Leiva era quem mais exagerava nos traçosdo caráter comum e se encarregava de pintar os sofrimentosda massa humana. Era um grupo de protestantes, detestando49a política, dando-se ares de trabalhar para obra maior,a quem as periódicas “revoluções” não serviam. Um ou outroacontecimento vinha-lhes dar a ilusão de que eram guias da52opinião. Leiva gabava-se de ter feito duas greves e de termodificado as opiniões do operariado do Bangu com as suasconferências aplaudidas. Os outros, sem a sua enfibratura,55os seus rompantes de atrevimento e a sua ambição oculta, maissinceros talvez por isso, limitavam-se a falar e a manifestar assuas terríveis opiniões em publicações pouco lidas.58 No entanto, Leiva parecia-me mais sincero nasua poesia palaciana e de modista do que nas ideiasrevolucionárias. Não o julgava perfeitamente hipócrita;61era a sua situação que lhe determinava aquelas opiniões; o seufundo era cético e amoroso das comodidades que a riqueza dá.Cessassem as suas dificuldades, elas desapareceriam e surgiria64então o verdadeiro Leiva, indiferente aos destinos da turba,dando uma esmola em dia de mau humor e preocupado comuma ruga no fraque novo que viera do alfaiate.

Lima Barreto. Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Brasiliense, 1956, p.133-6 (com adaptações).

Considerando as relações semântico-sintáticas estabelecidas no texto II, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 9.

    A conjunção “Embora” (l.37) pode ser substituída por Posto que, mantendo-se o sentido e a correção gramatical do texto.

  2. 10.

    O tom memorialista do primeiro parágrafo manifesta-se pelo uso predominante de formas verbais que denotam o início de determinadas ações, das quais são exemplos “Jantava” e “almoçava”, ambas na linha 10, e “Vivia” (l.20).

  3. 11.

    Da leitura do período “Como revolucionário, (...) dos Varredores de Rua” (l. 16 a 20), é correto inferir que, além de “formidáveis folhetos de capa vermelha”, o senhor Teixeira Mendes lia “prédicas e brochuras”.

  4. 12.

    No período “Creio que lhes não faltava inteligência, sinceridade também; o que não encontravam era uma soma de necessidades a que viessem responder e sobre as quais apoiassem as suas furiosas declamações” (l. 38 a 41), as negações enfatizam a sequência de características depreciativas atribuídas ao grupo de Leiva, para o que contribui o emprego do adjetivo “furiosas” e do modo subjuntivo, que destaca a inconsistência de suas ações.

Texto II

1 Dei em passear de bonde, saltando de um para outro,aventurando-me por travessas afastadas, para buscar o veículoem outros bairros. Da Tijuca ia ao Andaraí e daí à Vila Isabel;4e assim, passando de um bairro para outro, procurandotravessas despovoadas e sem calçamento, conheci a cidade —tal qual os bondes a fizeram alternativamente povoada7e despovoada, com grandes hiatos entre ruas de populaçãocondensada e toda ela, agitada, dividida, convulsionadapelas colinas e contrafortes da montanha em cujas vertentes10crescera. Jantava, uns dias; em outros, almoçava unicamente;e houve muitos que nem uma coisa ou outra fiz. (...)Abelardo Leiva, o meu recente conhecimento, era poeta13e revolucionário. Como poeta tinha a mais sincera admiraçãopela beleza das meninas e senhoras de Botafogo. Não faltavaàs regatas, às quermesses, às tômbolas, a todos os lugares16em que elas apareciam em massa; (...). Como revolucionário,dizia-se socialista adiantado, apoiando-se nas prédicase brochuras do Senhor Teixeira Mendes, lendo também19formidáveis folhetos de capa vermelha, e era secretáriodo Centro de Resistência dos Varredores de Rua. Viviapobremente, curtindo misérias e lendo, entre duas refeições22afastadas, as suas obras prediletas e enchendo a cidade comos longos passos de homem de grandes pernas. Depois de nossas relações, era frequente passearmos25juntos. Saíamos às dez horas, tomávamos café e andávamosaté as três ou quatro da tarde. A essa hora separávamo-nosem obediência a uma convenção tácita. Tratava-se de jantar28e cada um de nós ia arranjar-se. À tarde, encontrávamo-nose íamos conversar a um café com alguns outros amigos dele,na mor parte desprovidos de dinheiro, com magros e humildes31empregos, pretendendo virar a face do mundo para ter almoçoe jantar diariamente. Leiva era o chefe, era a inteligênciado grupo, pois, além de poeta, tinha todos os preparatórios34para o curso de dentista. Eu gostava de notar a adoraçãopela violência que as suas almas pacíficas tinham,e a facilidade com que explicavam tudo e apresentavam37remédios. Embora mais moço que ele, várias vezes chegueia sorrir aos seus entusiasmos. Creio que lhes não faltavainteligência, sinceridade também; o que não encontravam40era uma soma de necessidades a que viessem respondere sobre as quais apoiassem as suas furiosas declamações.Insurgiam-se contra o seu estado particular, oriundo talvez43mais de suas qualidades de caráter do que de falhasde temperamento. Eram todos honestos, orgulhosos,independentes e isso não leva ninguém à riqueza e à46abastança. Leiva era quem mais exagerava nos traçosdo caráter comum e se encarregava de pintar os sofrimentosda massa humana. Era um grupo de protestantes, detestando49a política, dando-se ares de trabalhar para obra maior,a quem as periódicas “revoluções” não serviam. Um ou outroacontecimento vinha-lhes dar a ilusão de que eram guias da52opinião. Leiva gabava-se de ter feito duas greves e de termodificado as opiniões do operariado do Bangu com as suasconferências aplaudidas. Os outros, sem a sua enfibratura,55os seus rompantes de atrevimento e a sua ambição oculta, maissinceros talvez por isso, limitavam-se a falar e a manifestar assuas terríveis opiniões em publicações pouco lidas.58 No entanto, Leiva parecia-me mais sincero nasua poesia palaciana e de modista do que nas ideiasrevolucionárias. Não o julgava perfeitamente hipócrita;61era a sua situação que lhe determinava aquelas opiniões; o seufundo era cético e amoroso das comodidades que a riqueza dá.Cessassem as suas dificuldades, elas desapareceriam e surgiria64então o verdadeiro Leiva, indiferente aos destinos da turba,dando uma esmola em dia de mau humor e preocupado comuma ruga no fraque novo que viera do alfaiate.

Lima Barreto. Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Brasiliense, 1956, p.133-6 (com adaptações).

Com relação às ideias desenvolvidas no texto II, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 13.

    O narrador supõe existir um “verdadeiro Leiva” (l.64), que se vislumbra na “poesia palaciana e de modista” (l.59) deste personagem, e imagina que, caso passasse a viver em condições econômicas mais favoráveis, Leiva se revelaria descrente dos ideais revolucionários e atraído pelo conforto material.

  2. 14.

    No texto, o narrador emprega a expressão “grandes hiatos”(l.7) para se referir a locais despovoados da cidade, que ele ia conhecendo de bonde.

  3. 15.

    Nos trechos “Eu gostava de notar a adoração pela violência que as suas almas pacíficas tinham” (l. 34 e 35) e “Era um grupo de protestantes, detestando a política” (l. 48 e 49), o narrador alude a uma ambivalência no comportamento de Leiva e de seus amigos.

  4. 16.

    O narrador discorda da opinião geral dos amigos de Leiva, que o julgam “perfeitamente hipócrita” (l.60), e considera que tal julgamento advém do meio pobre e humilde que Leiva frequenta.

Texto IV

1 A classe dedicada ao comércio, marcada pela comprae venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro,não representava, no Império, o padrão social dominante.4Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramomais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãosdos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou7de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava,visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta,sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados10ou senhores de rendas. O homem que traficava — membroda classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificarsocialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do13estilo ou nos traços secundários da classe proprietáriae do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se éo termo certo — a uma categoria superior no desfrute16ostentatório de rendas, transformando a natureza de seupatrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupadoem amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase19uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possívelno espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dosfidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio22se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secularestrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica,que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma25classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seuspassos. Dentro da consciência do homem que enriqueceuno trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise.28O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba),aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar osbens para que eles lhes proporcionassem renda segura e31estável. Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha(Quincas Borba), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos34(Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertemo patrimônio em prestações de renda, mas continuam presosaos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros37desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas háa crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século,em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e40não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico:dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sóciode comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel43à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contosde réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contosanuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza,46de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração.“Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 —ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma49fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-seem meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entreo egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração52humano, e as ideias generosas que em grau elevadome arrastavam a outros destinos...”. O egoísmo seria a fruiçãodo capital, sem suor e angústias; o impulso contrário,55a expansão da economia, que se identificaria, para a classelucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papeldinâmico na sociedade, criando atividades novas e58aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevoe autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, douradode tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil,61como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígiodo estamento político, que maneja o poder do alto e de cima,sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação64e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversaao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore,e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de67capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.

Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).

Com referência ao texto IV, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 17.

    Raymundo Faoro argumenta que personagens de romances, tais como Palha e Cotrim, anteciparam, em meados do século XIX, tendências econômicas e políticas que estariam plenamente consolidadas ao final do Império brasileiro.

  2. 18.

    Conforme o texto, tanto o Dr. Félix, personagem de Ressurreição, quanto Rubião, personagem de Quincas Borba, mantinham, em seus negócios e investimentos, condutas que seguiam princípios éticos e morais opostos aos de um homem de comércio como Mauá, que pertencia à ordem dominante.

  3. 19.

    Salienta-se, no texto, a importância da renda como atributo de grande reconhecimento social, o que levou Mauá a vivenciar ‘uma luta vivaz’ (l.50), isto é, um dilema, entre a utilização do capital para fins próprios e o investimento na economia nacional.

  4. 20.

    Conclui-se do texto que a maioria dos comerciantes, no Império, não era formada por brasileiros, bem como que o comércio mais lucrativo praticado na época estava associado à economia escravocrata.

Texto I

1 O ano de 1881 foi dos mais significativos eimportantes para a ficção no Brasil, pois que nele sepublicaram as Memórias Póstumas de Brás Cubas,4de Machado de Assis (saídas na Revista Brasileira, no anoanterior) e O Mulato, de Aluísio Azevedo. Com estes livrosse encerrava a indecisão da década de setenta, e tomavam7corpo duas das tendências nela delineadas, a da análise,prenunciada nos primeiros trabalhos do próprio Machadode Assis, e a naturalista, prefigurada principalmente pelo10Coronel Sangrado, de Inglês de Sousa, e por Um Casamentono Arrabalde, de Franklin Távora. A terceira, a regionalista,só um pouco depois ganharia feição mais nítida.13 No momento, impressionou muito mais a novidadedo Mulato — sob muitos aspectos ainda tão preso àsdeformações românticas — do que a do Brás Cubas,16muito mais completa e audaciosa. É que aquele não só traziaum rótulo em moda, como, parecendo revolucionário ede fato o sendo pelo tema, continuava a velha linha nacional19de romances que encontravam na descrição de costumes o seucentro de gravidade; foi por isso mais facilmente entendidoe admirado. Pelos livros de Zola e Eça de Queirós, estavam22o meio intelectual e o público que lia preparados para receberafinal uma obra naturalista brasileira, que na verdade se faziaesperar, ao passo que nada os habituara de antemão à nova25maneira de Machado de Assis, já que nenhum críticovislumbrara as sondagens psicológicas escondidas sob os casossentimentais que até então de preferência contara. Toda a gente28se deslumbrou — ou se escandalizou — com O Mulato,sem perceber que o espírito de inovação e de rebeldiaestava mais nas Memórias Póstumas de Brás Cubas.31Aqui, ousadamente, varriam-se de um golpe o sentimentalismo,o moralismo superficial, a fictícia unidade da pessoa humana,as frases piegas, o receio de chocar preconceitos, a concepção34do predomínio do amor sobre todas as outras paixões;afirmava-se a possibilidade de construir um grande livro semrecorrer à natureza, desdenhava-se a cor local, colocava-se um37autor pela primeira vez dentro das personagens; surgiam afinalhomens e mulheres, e não brasileiros, ou gaúchos, ou nortistas,e — last but not least — patenteava-se a influência inglesa em40lugar da francesa, introduzia-se entre nós o humorismo. A independência literária, que tanto se buscara,só com este livro foi selada. Independência que não significa,43nem poderia significar, autossuficiência, e sim o estadode maturidade intelectual e social que permite a liberdadede concepção e expressão. Criando personagens e ambientes46brasileiros — bem brasileiros —, Machado não se julgouobrigado a fazê-los pitorescamente típicos, porque aconsciência da nacionalidade, já sendo nele total, não carecia49de elementos decorativos. Aquilo que reputava indispensávelao escritor, “certo sentimento íntimo que o torne homem do seutempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos52no tempo e no espaço”, ele o possuiu inteiramente, comuma posse tranquila e pacífica. E por isso pôde — o primeiroentre nós — ser universal sem deixar de ser brasileiro.55 Todas essas qualidades, das quais algumas já sehaviam delineado nos livros anteriores do seu autor, fizeramdas Memórias Póstumas de Brás Cubas um acontecimento58literário de imenso alcance. Tanto no presente como nopassado alterava o nosso panorama literário, porque exigia arevisão de valores que, segundo T. S. Eliot, se dá cada vez61que surge uma obra realmente nova. Aplicando ao restritopatrimônio das letras brasileiras a fórmula empregada umplano muito mais vasto pelo crítico inglês, podemos dizer64que o aparecimento do Brás Cubas modificou a ordemestabelecida. (...) Descontada a parte do coeficiente pessoal — sem67dúvida a mais importante — a obra de Machado de Assisrevela que já possuíamos, no fim do Segundo Reinado,um organismo social melhor definido do que faria supor70a confusão reinante nos domínios literários entre o indivíduoe o meio físico ou o clã a que pertencia. (...) Abandonandoos episódios sentimentais a que até esse momento mais ou73menos se ativera, instalando-se no íntimo de suas criaturas,Machado de Assis descobriu seres cujas reaçõesespecificamente brasileiras não contrariavam o caráter mais76larga e profundamente humano. E, entretanto — tais são os erros de perspectivados contemporâneos —, o que a todos pareceu novidade79completa foi O Mulato, que inaugurava muito mais umamaneira literária do que um ângulo de visão diferente.O movimento naturalista a que deu início empolgaria os82escritores, marcaria com o seu sinete não apenas o decênioque começava, mas também em boa parte o que se lhe seguiria,enquanto que, na época, só Raul Pompéia se deixaria seduzir85pelas análises praticadas no Brás Cubas. Havia, porém,nesses dois livros de índole tão diversa, um traço comum:em ambos triunfava a observação.

Lúcia Miguel Pereira. História da literatura brasileira – Prosa de ficção – de 1870 a 1920. Rio de Janeiro: José Olympio/INL, 1973, 3.a ed., p. 53-5 (com adaptações).

Com base nas ideias expressas no texto I, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 21.

    Segundo a autora do texto, o elemento de escândalo social intrínseco à temática de Memórias Póstumas de Brás Cubas não foi compreendido pelo meio intelectual, nem pelo público, no momento da publicação do romance na Revista Brasileira, em 1880, tampouco em seu lançamento em formato de livro, em 1881.

  2. 22.

    Embora seja um objeto importante nos dois romances mencionados — O Mulato e Memórias Póstumas de Brás Cubas —, o “sinete” (l.82) mostra-se fundamental no romance de Aluísio Azevedo, de feição naturalista.

  3. 23.

    É possível concluir do texto que, tal como aconteceu em 1822 no plano político, a “independência literária” (l.41) de 1881 caracterizou-se como um movimento de “liberdade de concepção e expressão” (l. 44 e 45), uma vez que tanto O Mulato quanto Memórias Póstumas de Brás Cubas expressaram o afastamento de seus autores da submissão intelectual a escritores estrangeiros, como Zola e Eça de Queirós.

  4. 24.

    A autora argumenta, no texto, que o romance de Machado de Assis é representante de uma tendência analítica em literatura, ao passo que O Mulato demonstra tendência descritiva, tendo alcançado, na época de sua publicação, maior popularidade que Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Texto III

1 Escrita em prosa e verso, a Carta Marítima éformalmente um poema sui generis, que supera as divisõesconvencionais do discurso. Quanto à mensagem, tem elementos4de uma alegre sátira ideologicamente avançada parao acanhado meio português do tempo, na qual Sousa Caldascensura os privilégios e a vida materializada, presa a uma7educação artificial e obsoleta, sugerindo a regeneraçãoda sociedade por meio de uma transformação como aque lhe parecia estar em curso na França revolucionária.10No plano cultural, satiriza a tirania da herança greco-latinae aspira a algo diferente, que não formula, sendo porémsignificativo que enquanto menciona Homero como exemplo13de poeta desligado do real, fechado num mundo factício, louveum moderno, Cervantes, que assim privilegia como autorde obra-prima mais adequada ao tempo, e que de mais a mais16reforça o seu propósito na Carta, por ser ela própria uma sátiracontra costumes e convenções cediças. Portanto, já em 1790Caldas insinuava a necessidade de mudar os padrões, e o fazia19com mais força e originalidade do que faria seis anos depoiso francês Joseph Berchoux, na citadíssima e medíocre Elegiasobre os Gregos e os Romanos, onde os acusa de lhe22infelicitarem a vida. (...) A mudança sugerida na Carta levaria o tempo de umageração para acontecer. Mas mesmo sem propor novos rumos25Sousa Caldas contribuiria a seu modo, ao descartar no restoda obra a imitação da Antiguidade e voltar-se para os temasreligiosos, que o Romantismo consideraria mais tarde como um28dos seus timbres diferenciadores. Pelo fato de ter remontadona tradução dos Salmos à poesia bíblica, embora nada tenhade pré-romântico ele foi considerado mais ou menos precursor31a partir do decênio de 1830; mas é inexplicável queos românticos nunca tenham mencionado a Carta, quepoderia, na perspectiva deles, ser lida como verdadeiro34manifesto modernizador. Curioso a este respeito é o caso de Gonçalves deMagalhães, que publicou em 1832 o pífio volume Poesias,37encharcado da rotina mais banal daquele momento de exaustãoliterária, inclusive com recurso constante à mitologia clássica.Mas no ano seguinte escreveu que não queria mais saber dela,40por clara influência da Carta Marítima, imitada quaseritualmente numa Carta ao Meu Amigo Dr. Cândido BorgesMonteiro (datada do Havre, 1833), onde narra a sua própria43viagem à França. Vistas as coisas de hoje, isto parece umainflexão por influência de Sousa Caldas, antes da conversãoestética ocorrida em Paris e manifestada na revista Niterói.46Por que então nos escritos renovadores Magalhães nãomencionou esta sua precoce mudança de rota, nem mesmoquando se referia a Sousa Caldas? Difícil imaginar os motivos,49sobretudo quando pensamos que os primeiros românticosqueriam a todo custo encontrar precursores, evocandoDurão, Basílio, São Carlos e Sousa Caldas entre os principais.52Talvez porque para quem tinha andado de braço com as musasclássicas, como o Magalhães de Poesias, a carga mitológicada Carta Marítima parecesse, na hora de renovar,55incompatível com a nova moda. Por isso, não apenas deixoua sua própria Carta fora dos Suspiros Poéticos, mas sóse animou a publicá-la em 1864, no volume Poesias Avulsas58das suas obras completas, onde recolheu pecados da mocidade.No entanto, se a tivesse divulgado na altura da sua pregaçãorenovadora ela teria sido (apesar da péssima qualidade)61um argumento de certo peso no rastreamento de sinaisprecursores e da sua própria antecipação. (...) No rasto de Magalhães, os primeiros românticos64também puseram de lado a Carta de Sousa Caldas, que talveztenham mesmo treslido, sem perceberem a força renovadoraque está implícita na sua brincadeira profilática e faz dela67indício precursor de certos aspectos que o nosso Romantismoassumiria, sem deixar com isso de ser um documento,plantado no solo setecentista da Ilustração.

Antonio Candido. Carta Marítima. In: O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1998, p. 220-2 (com adaptações).

Com relação a aspectos gramaticais do texto III, julgue (C ou E) os próximos itens.

  1. 25.

    Dados os sentidos do texto, é correto afirmar que os sujeitos elípticos das formas verbais “privilegia” (l.14) e “reforça” (l.16) têm referentes distintos.

  2. 26.

    A substituição da oração relativa “que não formula” (l.11) por embora não a formule manteria o sentido original do texto e sua correção gramatical, desde que fossem mantidas as vírgulas que isolam referida oração.

  3. 27.

    A substituição do vocábulo “encharcado” (l.37) por repleto preservaria o estilo original do período, embora acarretasse prejuízo ao teor metafórico da construção.

  4. 28.

    A substituição da conjunção “embora” (l.29) pela conjunção conquanto prejudicaria o sentido original do texto.

Texto IV

1 A classe dedicada ao comércio, marcada pela comprae venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro,não representava, no Império, o padrão social dominante.4Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramomais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãosdos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou7de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava,visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta,sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados10ou senhores de rendas. O homem que traficava — membroda classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificarsocialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do13estilo ou nos traços secundários da classe proprietáriae do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se éo termo certo — a uma categoria superior no desfrute16ostentatório de rendas, transformando a natureza de seupatrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupadoem amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase19uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possívelno espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dosfidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio22se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secularestrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica,que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma25classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seuspassos. Dentro da consciência do homem que enriqueceuno trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise.28O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba),aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar osbens para que eles lhes proporcionassem renda segura e31estável. Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha(Quincas Borba), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos34(Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertemo patrimônio em prestações de renda, mas continuam presosaos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros37desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas háa crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século,em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e40não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico:dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sóciode comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel43à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contosde réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contosanuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza,46de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração.“Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 —ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma49fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-seem meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entreo egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração52humano, e as ideias generosas que em grau elevadome arrastavam a outros destinos...”. O egoísmo seria a fruiçãodo capital, sem suor e angústias; o impulso contrário,55a expansão da economia, que se identificaria, para a classelucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papeldinâmico na sociedade, criando atividades novas e58aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevoe autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, douradode tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil,61como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígiodo estamento político, que maneja o poder do alto e de cima,sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação64e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversaao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore,e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de67capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.

Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).

Com referência ao texto IV, julgue (C ou E) os próximos itens.

  1. 29.

    A colocação do pronome em “embriagou-se” (l.12), “Elevava-se” (l.14), ‘Já se vê’ (l.47) e “que se identificaria” (l.55) está de acordo com a variedade formal culta da língua portuguesa e deve-se a razões fonético-sintáticas.

  2. 30.

    Na linha 23, o emprego da vírgula logo após a expressão “da nova dinâmica” bem como o emprego do artigo definido em “da” indicam que a oração “que agita e move a sociedade” (l.24) não participa da construção da referência dessa expressão.

  3. 31.

    Tendo o pronome oblíquo sentido possessivo em “sem consultar-lhe as preferências” (l.63), tal trecho poderia ser substituído por sem consultar as suas preferências, mantendo-se, com isso, a correção gramatical e o sentido do texto.

  4. 32.

    Tanto em “do albardeiro ao círculo dos fidalgos” (l. 20 e 21) quanto em “dos doze aos trinta e dois anos” (l.41), a preposição de foi empregada no sentido de desde.

Texto III

1 Escrita em prosa e verso, a Carta Marítima éformalmente um poema sui generis, que supera as divisõesconvencionais do discurso. Quanto à mensagem, tem elementos4de uma alegre sátira ideologicamente avançada parao acanhado meio português do tempo, na qual Sousa Caldascensura os privilégios e a vida materializada, presa a uma7educação artificial e obsoleta, sugerindo a regeneraçãoda sociedade por meio de uma transformação como aque lhe parecia estar em curso na França revolucionária.10No plano cultural, satiriza a tirania da herança greco-latinae aspira a algo diferente, que não formula, sendo porémsignificativo que enquanto menciona Homero como exemplo13de poeta desligado do real, fechado num mundo factício, louveum moderno, Cervantes, que assim privilegia como autorde obra-prima mais adequada ao tempo, e que de mais a mais16reforça o seu propósito na Carta, por ser ela própria uma sátiracontra costumes e convenções cediças. Portanto, já em 1790Caldas insinuava a necessidade de mudar os padrões, e o fazia19com mais força e originalidade do que faria seis anos depoiso francês Joseph Berchoux, na citadíssima e medíocre Elegiasobre os Gregos e os Romanos, onde os acusa de lhe22infelicitarem a vida. (...) A mudança sugerida na Carta levaria o tempo de umageração para acontecer. Mas mesmo sem propor novos rumos25Sousa Caldas contribuiria a seu modo, ao descartar no restoda obra a imitação da Antiguidade e voltar-se para os temasreligiosos, que o Romantismo consideraria mais tarde como um28dos seus timbres diferenciadores. Pelo fato de ter remontadona tradução dos Salmos à poesia bíblica, embora nada tenhade pré-romântico ele foi considerado mais ou menos precursor31a partir do decênio de 1830; mas é inexplicável queos românticos nunca tenham mencionado a Carta, quepoderia, na perspectiva deles, ser lida como verdadeiro34manifesto modernizador. Curioso a este respeito é o caso de Gonçalves deMagalhães, que publicou em 1832 o pífio volume Poesias,37encharcado da rotina mais banal daquele momento de exaustãoliterária, inclusive com recurso constante à mitologia clássica.Mas no ano seguinte escreveu que não queria mais saber dela,40por clara influência da Carta Marítima, imitada quaseritualmente numa Carta ao Meu Amigo Dr. Cândido BorgesMonteiro (datada do Havre, 1833), onde narra a sua própria43viagem à França. Vistas as coisas de hoje, isto parece umainflexão por influência de Sousa Caldas, antes da conversãoestética ocorrida em Paris e manifestada na revista Niterói.46Por que então nos escritos renovadores Magalhães nãomencionou esta sua precoce mudança de rota, nem mesmoquando se referia a Sousa Caldas? Difícil imaginar os motivos,49sobretudo quando pensamos que os primeiros românticosqueriam a todo custo encontrar precursores, evocandoDurão, Basílio, São Carlos e Sousa Caldas entre os principais.52Talvez porque para quem tinha andado de braço com as musasclássicas, como o Magalhães de Poesias, a carga mitológicada Carta Marítima parecesse, na hora de renovar,55incompatível com a nova moda. Por isso, não apenas deixoua sua própria Carta fora dos Suspiros Poéticos, mas sóse animou a publicá-la em 1864, no volume Poesias Avulsas58das suas obras completas, onde recolheu pecados da mocidade.No entanto, se a tivesse divulgado na altura da sua pregaçãorenovadora ela teria sido (apesar da péssima qualidade)61um argumento de certo peso no rastreamento de sinaisprecursores e da sua própria antecipação. (...) No rasto de Magalhães, os primeiros românticos64também puseram de lado a Carta de Sousa Caldas, que talveztenham mesmo treslido, sem perceberem a força renovadoraque está implícita na sua brincadeira profilática e faz dela67indício precursor de certos aspectos que o nosso Romantismoassumiria, sem deixar com isso de ser um documento,plantado no solo setecentista da Ilustração.

Antonio Candido. Carta Marítima. In: O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1998, p. 220-2 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens seguintes, relacionados às ideias desenvolvidas no texto III.

  1. 33.

    De acordo com Antonio Candido, os autores românticos, entre eles Gonçalves de Magalhães, não fizeram referência à Carta Marítima, apesar de Sousa Caldas ser um poeta conhecido naquele momento e de o poema conter aspectos modernizadores buscados pela poesia romântica.

  2. 34.

    Antonio Candido afirma que Sousa Caldas, em Carta Marítima, escreveu um poema satírico que mostrava avanços em relação ao seu tempo, até mesmo pelo fato de o poeta fazer referência laudatória a um escritor como Miguel de Cervantes.

  3. 35.

    Conclui-se do texto que Sousa Caldas, ao escrever a Carta Marítima, prenunciou o Romantismo brasileiro, tendo criticado a “exaustão literária” (l. 37 e 38) da poesia de Gonçalves de Magalhães, que, no ano anterior, havia publicado um volume pífio intitulado Poesias.

  4. 36.

    Segundo o texto, Sousa Caldas, em Carta Marítima, repudiou os temas religiosos e preferiu salientar os mitos da Antiguidade clássica que permitissem fazer uma sátira surpreendente no meio social do seu tempo.

Texto IV

1 A classe dedicada ao comércio, marcada pela comprae venda de mercadorias ou na colocação de dinheiro,não representava, no Império, o padrão social dominante.4Os comerciantes eram, em grande parte, estrangeiros; o ramomais saliente do comércio, o ligado ao escravo, sujava as mãosdos que com ele enriqueciam. Um título de comendador ou7de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava,visto que o nobre pertencia a uma camada diversa, composta,sob o ponto de vista profissional ou econômico, de letrados10ou senhores de rendas. O homem que traficava — membroda classe lucrativa ou aquisitiva —, para se qualificarsocialmente, embriagou-se, perdidamente, na imitação do13estilo ou nos traços secundários da classe proprietáriae do estamento. Elevava-se, se enriquecido — elevava-se éo termo certo — a uma categoria superior no desfrute16ostentatório de rendas, transformando a natureza de seupatrimônio, ou ingressava na política e no governo, preocupadoem amortecer a cintilação equívoca da origem. Era quase19uma situação colonial, com a ascensão, nem sempre possívelno espaço de uma geração, do albardeiro ao círculo dosfidalgos. Em meados do século XIX o velho equilíbrio22se rompe, fio a fio, imperceptivelmente, na quebra de secularestrutura econômica e social. Consequência da nova dinâmica,que agita e move a sociedade, será a emancipação de uma25classe inteira, até aí pejada, impedida e entorpecida em seuspassos. Dentro da consciência do homem que enriqueceuno trato de mercadorias e de valores, haverá agora uma crise.28O Dr. Félix (Ressurreição) ou Rubião (Quincas Borba),aquinhoados pela inesperada herança, trataram de aplicar osbens para que eles lhes proporcionassem renda segura e31estável. Outra é a conduta de Mauá, como será a de Palha(Quincas Borba), Cotrim (Memórias Póstumas) ou de Santos34(Esaú e Jacó). Homens do comércio, não convertemo patrimônio em prestações de renda, mas continuam presosaos seus negócios, perseguindo o infinito, imantados por outros37desígnios, alimentados por uma nova sociedade. Mas háa crise. Rubião a vive, já, no último quartel do século,em sentido contrário, atraído pelos lucros do comércio e40não pelo comércio. Mauá a sentirá, no sentido autêntico:dos doze aos trinta e dois anos, vergado no balcão e sóciode comerciante, torna-se dono de respeitável fortuna. Fiel43à ordem dominante, não a calcula em bons e vistosos contosde réis, mas por sua renda, que seria superior a 50 contosanuais. A renda e não o capital dava a nota de grandeza,46de opulência, para encher os olhos e provocar a admiração.“Já se vê que, — confessava, aludindo ao ano de 1846 —ao engolfar-me em outra esfera de atividade, possuía eu uma49fortuna satisfatória, que me convidava a desfrutá-la. Travou-seem meu espírito, nesse momento, uma luta vivaz entreo egoísmo, que em maior ou menor dose habita o coração52humano, e as ideias generosas que em grau elevadome arrastavam a outros destinos...”. O egoísmo seria a fruiçãodo capital, sem suor e angústias; o impulso contrário,55a expansão da economia, que se identificaria, para a classelucrativa, com o progresso do país. Certo de seu papeldinâmico na sociedade, criando atividades novas e58aprimorando as existentes; esse estrato ganha relevoe autonomia, sem que se esconda atrás do biombo, douradode tradição e respeitabilidade, da classe proprietária. É hostil,61como conjunto, ao ócio dos homens de renda e ao prestígiodo estamento político, que maneja o poder do alto e de cima,sem consultar-lhe as preferências nem lhe pedir orientação64e conselho. Atente-se: a classe lucrativa tem conduta adversaao estilo de vida da camada dirigente, não obstante a explore,e viva, em grande parte, de seus favores, numa espécie de67capitalismo político, dependente e subordinado ao Estado.

Raymundo Faoro. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974, p. 225-7 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens subsequentes, acerca das ideias e das estruturas linguísticas do texto IV.

  1. 37.

    Na linha 65, a substituição de “não obstante” por contudo preservaria a correção gramatical e o sentido original do texto.

  2. 38.

    Os vocábulos “pejada” (l.25) e “aquinhoados” (l.29) podem ser substituídos, respectivamente, por embaraçada e contemplados, sem prejuízo para as informações veiculadas no texto.

  3. 39.

    Apesar da cacofonia inicial, a correção gramatical e o sentido original do texto seriam mantidos caso o trecho “Um título de comendador ou de barão dourava o busto do empresário, mas não o nobilitava” (l. 6 e 7) fosse reescrito da seguinte forma: Comenda de comendador ou de barão dourava o busto de comerciantes, embora não lhes tornasse nobre.

  4. 40.

    Feitos os devidos ajustes de maiúsculas e minúsculas e de pontuação, o deslocamento dos advérbios “socialmente” e “perdidamente”, ambos na linha12, para o início e para o fim do período em que eles ocorrem, respectivamente, manteria a correção e o sentido original do texto.

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