Língua Portuguesa — CACD 2012

CESPE/UnB · CACD – 1ª fase (TPS) · 58 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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Fragmento I 1 Macunaíma1 No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande4 escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro7 passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava: — Ai! Que preguiça!...10 e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho13 e Jiguê na força do homem.Fragmento II 9 Carta pras icamiabas1 Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas. Trinta de Maio de Mil Novecentos e Vinte e Seis, São Paulo.4 Senhoras: Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e a literatura desta missiva. Cumpre-nos, entretanto, iniciar estas7 linhas de saudade e muito amor, com desagradável nova. É bem verdade que na boa cidade de São Paulo — a maior do universo, no dizer de seus prolixos habitantes — não sois10 conhecidas como “icamiabas”, voz espúria, sinão que pelo apelativo de Amazonas; e de vós, se afirma, cavalgardes ginetes belígeros e virdes da Hélade clássica; e assim sois13 chamadas. Muito nos pesou a nós, Imperator vosso, tais dislates da erudição, porém heis de convir conosco que, assim, ficais mais heroicas e mais conspícuas, tocadas por essa plátina16 respeitável da tradição e da pureza antiga. (...) Macunaíma, Imperator

Mário de Andrade. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 13, 97 e 109.

Considerando os aspectos linguísticos e a estrutura da narrativa nos fragmentos apresentados, extraídos da obra Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 1.

    Ambos os fragmentos apresentam a estrutura textual típica da narrativa, recurso empregado pelo autor como forma de manter a coerência dos fatos narrados.

  2. 2.

    Observa-se, nos fragmentos apresentados, que o narrador onisciente do primeiro fragmento não se faz presente no segundo.

  3. 3.

    Em ambos os fragmentos, encontram-se traços de subjetividade: no primeiro, do narrador; no segundo, do autor da carta.

  4. 4.

    Na linha 12 do fragmento I, a oração “que tinha”, sintática e semanticamente dispensável para o texto, caracteriza-se por ter um pronome relativo como sujeito sintático.

1 (...) na questão de se o mundo é mais digno de riso oude pranto, e se à vista do mesmo mundo tem mais razão quemri, como ria Demócrito, ou quem chora, como chorava4Heráclito, eu, para defender, como sou obrigado, a parte dopranto, confessarei uma coisa e direi outra. Confesso que aprimeira propriedade do racional é o risível: e digo que a maior7impropriedade da razão é o riso. O riso é o final do racional, opranto é o uso da razão. (...) Mas se Demócrito era um homem tão grande entre os10homens e um filósofo tão sábio, e se não só via este mundo,mas tantos mundos, como ria? Poderá dizer-se que ele ria nãodeste nosso mundo, mas daqueles seus mundos.13 E com razão, porque a matéria de que eramcompostos os seus mundos imaginados, toda era de riso. Écerto, porém, que ele ria neste mundo e que se ria deste mundo.16Como, pois, se ria ou podia rir-se Demócrito do mesmo mundoou das mesmas coisas que via e chorava Heráclito? A mim,senhores, mo parece que Demócrito não ria, mas que19Demócrito e Heráclito ambos choravam, cada um ao seu modo. Que Demócrito não risse, eu o provo. Demócrito riasempre: logo não ria. A consequência parece difícil e evidente.22O riso, como dizem todos os filósofos, nasce da novidade e daadmiração, e cessando a novidade ou a admiração, cessatambém o riso; o como Demócrito se ria dos ordinários25desconcertos do mundo, o que é ordinário e se vê sempre, nãopode causar admiração nem novidade; segue-se que nunca ria,rindo sempre, pois não havia matéria que motivasse o riso.

Padre Antônio Vieira. Sermão da sexagésima. In: J. Verdasca (Org. e coord.). Sermões escolhidos. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 190-2.

Com relação à análise linguística de passagens do texto, julgue o item a seguir.

  1. 5.

    No primeiro e no segundo parágrafos, o autor utiliza a coordenação para ligar orações substantivas introduzidas pelo conectivo subordinativo “se”.

  2. 6.

    No trecho “A mim, senhores, mo parece que Demócrito não ria” (l.17-18), evidenciam-se três características estilísticas da linguagem textual: obviedade, barbarismo e concisão.

  3. 7.

    O autor explora as possibilidades semânticas da palavra “mundo” no trecho “É certo, porém, que ele ria neste mundo e que se ria deste mundo” (l.14-15), em que o vocábulo tem como referente, em ambas as ocorrências, “mundos imaginados” (l.14).

  4. 8.

    Constitui proposta de reescrita coerente e gramaticalmente correta para o trecho “Confesso que a primeira propriedade do racional é o risível: e digo que a maior impropriedade da razão é o riso” (l.5-7) a seguinte: O que eu confesso é que a primeira propriedade do racional é o risível; e o que eu digo é que a maior impropriedade da razão é o riso.

  5. 9.

    Dada a dependência sintático-semântica do trecho “porque a matéria de que eram compostos os seus mundos imaginados, toda era de riso” (l.13-14) à expressão “com razão” (l.13), o período iniciado à linha 13 poderia ser reescrito, sem prejuízo do sentido ou da correção gramatical do texto, da seguinte forma: Eis a razão por que a matéria que eram compostos os seus mundos imaginados era toda de riso.

Fragmento I 1 Macunaíma1 No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande4 escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro7 passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava: — Ai! Que preguiça!...10 e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho13 e Jiguê na força do homem.Fragmento II 9 Carta pras icamiabas1 Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas. Trinta de Maio de Mil Novecentos e Vinte e Seis, São Paulo.4 Senhoras: Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e a literatura desta missiva. Cumpre-nos, entretanto, iniciar estas7 linhas de saudade e muito amor, com desagradável nova. É bem verdade que na boa cidade de São Paulo — a maior do universo, no dizer de seus prolixos habitantes — não sois10 conhecidas como “icamiabas”, voz espúria, sinão que pelo apelativo de Amazonas; e de vós, se afirma, cavalgardes ginetes belígeros e virdes da Hélade clássica; e assim sois13 chamadas. Muito nos pesou a nós, Imperator vosso, tais dislates da erudição, porém heis de convir conosco que, assim, ficais mais heroicas e mais conspícuas, tocadas por essa plátina16 respeitável da tradição e da pureza antiga. (...) Macunaíma, Imperator

Mário de Andrade. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 13, 97 e 109.

Considerando a coerência, a progressão temática e as marcas de referencialidade do fragmento II do texto, julgue (C ou E) os seguintes itens.

  1. 10.

    Na expressão “voz espúria” (l.10), o adjetivo empregado tem, no contexto, sentido de não castiça.

  2. 11.

    O conteúdo semântico do fragmento II é suficiente para que dele se infira quem não conhecia as icamiabas no trecho “não sois conhecidas como ‘icamiabas’” (l.9-10): os mesmos indivíduos que as chamavam de Amazonas.

  3. 12.

    O advérbio “assim” (l.12 e 14) reporta-se, em ambas as ocorrências no fragmento, a “apelativo de Amazonas” (l.11), termo que pode substituir esse advérbio nas duas linhas, sem prejuízo para as estruturas sintáticas ou os sentidos do texto.

  4. 13.

    A formalidade da linguagem, na carta endereçada às icamiabas, é adequada ao texto e coerente com as características do remetente, “Macunaíma Imperator”, e das destinatárias, as icamiabas.

1 Desde 1934 — Lampião à solta, Antônio Silvinopreso no Recife, Sinhô Pereira arribado para os lados de MinasGerais — Clarival Valladares despertava para o mundo de4significados que o cangaceiro carregava penduradas,afiveladas, cravadas ou costuradas no conjunto do traje e nosequipamentos, como ainda hoje se vê no aguadeiro das feiras7do Marrocos, as cartucheiras envernizadas e bem ajoujadas aocorpo, a não deverem homenagem — senão a requerê-la — àguarda de um Ibn-Saud. Com a população portuguesa drenada10para a aventura da Índia, foi o moçárabe, em boa parte, queveio povoar o Brasil. Presença viva na cultura brasileira, aárabe, por suas muitas composições, teve aulas a dar em maior13número a um sertão de 500 mm de chuva anual que a umafaixa litorânea de fáceis 1.500 mm. O que Valladares percebeufoi a raiz pastoril da estética do cangaço, encantando-se por ver16que a do guerreiro ia muito além da que pontuava as alfaiasmagras do pastor, por não se ver empobrecida pelo tetolimitador da funcionalidade, capaz de explicar tudo na19vestimenta do vaqueiro. Para ele, assim: O traje do cangaceiro é um dos exemplosdemonstrativos do comportamento arcaico brasileiro. Ao invés22de procurar camuflagem para a proteção do combatente, éadornado de espelhos, moedas, metais, botões e recortesmulticores, tornando-se um alvo de fácil visibilidade até no25escuro. Lembremo-nos, entretanto, que, no entendimento docomportamento arcaico, o homem está ligado e dependente aosobrenatural, em nome do qual ele exerce uma missão, lidera28um grupo, desafia porque se acredita protegido e inviolável e,de fato, desligado do componente da morte. Esta explicação,embora sumária, de algum modo justifica a incidência da31superfluidade ornamental no traje do cangaceiro, que, antesde sua implicação mística, deriva do empírico traje dovaqueiro.

Frederico Pernambucano de Mello. Estrelas de couro — a estética do cangaço. São Paulo: Escrituras, 2010, p. 48-9 (com adaptações).

Com relação ao texto, julgue o item a seguir.

  1. 14.

    No texto, a “superfluidade” (l.31), que caracteriza o traje do cangaceiro, contrapõe-se à “raiz pastoril” (l.15) do traje.

  2. 15.

    No texto, a “superfluidade” (l.31), que caracteriza o traje do cangaceiro, contrapõe-se ao adorno com “recortes multicores” (l.23-24).

  3. 16.

    No texto, a “superfluidade” (l.31), que caracteriza o traje do cangaceiro, contrapõe-se à “funcionalidade” (l.18) da vestimenta do vaqueiro.

  4. 17.

    No texto, a “superfluidade” (l.31), que caracteriza o traje do cangaceiro, contrapõe-se à “visibilidade” (l.24) do combatente.

  5. 18.

    No texto, a “superfluidade” (l.31), que caracteriza o traje do cangaceiro, contrapõe-se à “implicação mística” (l.32) de seus acessórios.

1 Desde 1934 — Lampião à solta, Antônio Silvinopreso no Recife, Sinhô Pereira arribado para os lados de MinasGerais — Clarival Valladares despertava para o mundo de4significados que o cangaceiro carregava penduradas,afiveladas, cravadas ou costuradas no conjunto do traje e nosequipamentos, como ainda hoje se vê no aguadeiro das feiras7do Marrocos, as cartucheiras envernizadas e bem ajoujadas aocorpo, a não deverem homenagem — senão a requerê-la — àguarda de um Ibn-Saud. Com a população portuguesa drenada10para a aventura da Índia, foi o moçárabe, em boa parte, queveio povoar o Brasil. Presença viva na cultura brasileira, aárabe, por suas muitas composições, teve aulas a dar em maior13número a um sertão de 500 mm de chuva anual que a umafaixa litorânea de fáceis 1.500 mm. O que Valladares percebeufoi a raiz pastoril da estética do cangaço, encantando-se por ver16que a do guerreiro ia muito além da que pontuava as alfaiasmagras do pastor, por não se ver empobrecida pelo tetolimitador da funcionalidade, capaz de explicar tudo na19vestimenta do vaqueiro. Para ele, assim: O traje do cangaceiro é um dos exemplosdemonstrativos do comportamento arcaico brasileiro. Ao invés22de procurar camuflagem para a proteção do combatente, éadornado de espelhos, moedas, metais, botões e recortesmulticores, tornando-se um alvo de fácil visibilidade até no25escuro. Lembremo-nos, entretanto, que, no entendimento docomportamento arcaico, o homem está ligado e dependente aosobrenatural, em nome do qual ele exerce uma missão, lidera28um grupo, desafia porque se acredita protegido e inviolável e,de fato, desligado do componente da morte. Esta explicação,embora sumária, de algum modo justifica a incidência da31superfluidade ornamental no traje do cangaceiro, que, antesde sua implicação mística, deriva do empírico traje dovaqueiro.

Frederico Pernambucano de Mello. Estrelas de couro — a estética do cangaço. São Paulo: Escrituras, 2010, p. 48-9 (com adaptações).

Em relação às ideias do texto, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 19.

    Depreende-se da leitura do texto que Clarival Valladares iniciou o estudo sobre o significado das vestimentas e do comportamento dos cangaceiros a partir de 1934, quando ocorreram os sinais de que o cangaço havia deixado de ser uma ameaça ao poder local.

  2. 20.

    Pelas relações estabelecidas no texto, conclui-se que a cultura árabe influenciou a cultura brasileira do sertão, tendo deixado marcas em acessórios de que se valeram os cangaceiros brasileiros.

  3. 21.

    Dos trechos “Lampião à solta” e “Sinhô Pereira arribado para os lados de Minas Gerais” depreende-se que a mobilidade dos cangaceiros devia-se ao exercício da missão mística de ampliação dos limites geográficos dos estados brasileiros.

  4. 22.

    Pela análise da vestimenta do cangaceiro, pretende-se demonstrar o caráter profundamente místico desse combatente “dependente ao sobrenatural”, que contrasta com o vaqueiro, caracterizado pelo “teto limitador da funcionalidade”, sem qualquer anseio místico ou submissão às crenças relacionadas ao sobrenatural.

1 É certo que, de modo geral, toda obra literária deveser a expressão, a revelação de uma personalidade. Há, porém,nos temperamentos masculinos, uma maior tendência para4fazer do autor uma figura escondida por detrás das suascriações, operando-se um desligamento quando a obra já estejafeita e acabada. Isto significa que um escritor pode colocar7toda a sua personalidade na obra, contudo nela se diluindo detal modo que o espectador só vê o objeto e não o homem.

Álvaro Lins. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963, p. 27.

Com relação ao fragmento de texto acima, julgue o item a seguir.

  1. 23.

    No último período do texto, a referência do sujeito elíptico da oração “contudo nela se diluindo de tal modo” (l.7-8) recupera o termo “um escritor” (l.6), o que possibilitaria, mantendo-se a mesma referência, a seguinte estrutura alternativa: que, contudo, se dilui de tal modo.

  2. 24.

    No último período do fragmento de texto apresentado, o autor indica, por meio de relação de causa e efeito, o modo como se opera o distanciamento de um escritor ao produzir uma obra literária, ou seja, o processo por meio do qual o enunciador se torna “uma figura escondida por detrás das suas criações” (l.4-5).

  3. 25.

    O fato de o texto expressar uma generalização a respeito da produção de obras literárias justifica o tom assertivo e imperativo predominante no texto, evidenciado, por exemplo, no emprego do predicado “É certo” (l.1).

  4. 26.

    Pelos elementos textuais presentes no texto, infere-se que o autor considera as escritoras — os “temperamentos” (l.3) femininos — incapazes de produzir obras em que seja atendido o postulado de distanciamento entre autor e conteúdo expresso na obra literária.

  5. 27.

    Sem alteração da informação expressa no primeiro período do texto, a expressão adverbial “de modo geral” (l.1) poderia ser deslocada, com as vírgulas, para imediatamente depois da locução verbal “deve ser” (l.1-2) ou, eliminando-se as vírgulas que a isolam, para imediatamente após o núcleo nominal “personalidade” (l.2).

1 Estou tão perdida. Mas é assim mesmo que se vive:perdida no tempo e no espaço. Morro de medo de comparecer diante de um Juiz.4Emeretíssimo, dá licença de eu fumar? Dou, sim senhora, eumesmo fumo cachimbo. Obrigada, Vossa Eminência. Tratobem o Juiz, Juiz é Brasília. Mas não vou abrir processo contra7Brasília. Ela não me ofendeu. (...) Eu sei morrer. Morri desde pequena. E dói, mas agente finge que não dói. Estou com tanta saudade de Deus.10 E agora vou morrer um pouquinho. Estou tãoprecisada. Sim. Aceito, my Lord. Sob protesto.13 Mas Brasília é esplendor. Estou assustadíssima.

Clarice Lispector. Para não esquecer. São Paulo: Círculo do Livro, 1981, p. 106-7.

No que concerne a aspectos gramaticais do texto acima, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 28.

    A inadequação no emprego do pronome de tratamento em “Emeretíssimo, dá licença de eu fumar?” (l.4) é sanada pela escritora no período “Obrigada, Vossa Eminência.” (l.5), o que evidencia o deliberado desrespeito a padrões normativos da língua portuguesa.

  2. 29.

    No período “Mas é assim mesmo que se vive: perdida no tempo e no espaço.” (l.1-2), o particípio do verbo perder, empregado em estrutura de indeterminação do sujeito da oração, poderia, conforme regra de concordância nominal, estar na forma masculina, regra da qual, no entanto, a obra literária prescinde, dada a liberdade que preside a criação artística.

  3. 30.

    Da combinação inusitada do verbo morrer, flexionado no pretérito perfeito do indicativo, com a expressão adverbial “desde pequena” (l.8) infere-se uma compreensão da morte diferente da que estaria implícita caso tivesse sido empregada a locução verbal Venho morrendo.

  4. 31.

    Na frase “Dou, sim senhora, eu mesmo fumo cachimbo.” (l.4-5), a escolha vocabular e o emprego do advérbio de afirmação seguido, sem pausa, do vocativo “senhora” caracterizam a fala formal de um juiz, a qual contrasta com o conteúdo intimista e o coloquialismo, predominantes no texto.

1 As críticas, de um modo geral, não me fazem bem. Ado Álvaro Lins (...) me abateu e isso foi bom de certo modo.Escrevi para ele dizendo que não conhecia Joyce nem Virginia4Woolf nem Proust quando fiz o livro, porque o diabo dohomem só faltou me chamar de representante comercial deles.Não gosto quando dizem que tenho afinidades com Virginia7Woolf (só li, aliás, depois de escrever o meu primeiro livro):é que não quero perdoar o fato de ela se ter suicidado. Ohorrível dever é ir até o fim.

Clarice Lispector. Carta a Tania Lispector Kaufmann. In: Olga Borelli. Clarice Lispector: esboço para um possível retrato. 2.ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p. 45.

Julgue (C ou E) os itens seguintes, relativos ao fragmento de texto acima, extraído de carta escrita por Clarisse Lispector.

  1. 32.

    Infere-se do texto que Clarice Lispector postergou a leitura da obra de Virginia Woolf devido à sua dificuldade em desculpar suicidas, que, segundo ela, são pessoas que manifestam fraqueza ao interromper um dever existencial, ainda que um “horrível dever”.

    Item anulado pela banca

  2. 33.

    No terceiro período do texto, a oração iniciada pelo conector “quando” (l.4) e a iniciada pelo conector “porque” (l.4) indicam, respectivamente, as circunstâncias de tempo e causa relacionadas ao fato expresso na oração “que não conhecia Joyce nem Virginia Woolf nem Proust” (l.3-4).

  3. 34.

    A organização sintática do trecho “Não gosto quando dizem que tenho afinidades com Virginia Woolf (só li, aliás, depois de escrever o meu primeiro livro)” (l.6-7), em que são desprezadas prescrições de regência verbal, caracteriza registro linguístico adequado à escrita de uma carta informal, como é o caso do texto apresentado.

    Item anulado pela banca

  4. 35.

    Admite-se como forma alternativa de reescrita da expressão coloquial “o diabo do homem só faltou me chamar de” (l.4-5) a estrutura só faltou o diabo do homem me chamar de, na qual o verbo faltar é empregado como impessoal e, portanto, integra uma oração sem sujeito.

1 Nas narrativas que produziu nos últimos anos de suavida, Clarice Lispector problematiza alguns mitos oupressupostos literários. Segundo seus termos em Relatório da4Coisa, ela buscou “desmistificar a ficção”. O uso de certasestratégias que apagam o limite entre o autobiográfico e oficcional revela um desejo de questionar a noção da ficção7como espaço autônomo em relação à realidade exterior. Alémdisso, o gosto por certos modos de composição (a montageme, em outros casos, a aproximação da escrita à estrutura casual10de uma conversa) parece igualmente indicar esse intento dedesmistificar a ficção. Para a autora, nos últimos anos, a escritaliterária seria uma prática sem sentido (e, às vezes, até mesmo13imoral) se fosse puramente estética, ou seja, se permanecessepresa a certos decoros literários. Vários textos de suascoletâneas dos anos 70 produzem ou estão destinados a16produzir um efeito de “mau gosto”, também descrito pelaautora como um “susto de constrangimento”.

Sônia Roncador. Poéticas do empobrecimento: a escrita derradeira de Clarice. São Paulo: Annablume, 2002, p. 135-6 (com adaptações).

Julgue o item a seguir, a respeito do texto acima.

  1. 36.

    Privilegiando-se a concisão textual e sem prejuízo para o sentido original do texto, a oração adjetiva “que produziu nos últimos anos de sua vida” (l.1-2) poderia ser substituída tanto pelo adjetivo derradeiras quanto pelo adjetivo longevas.

  2. 37.

    A expressão “decoros literários” (l.14) significa, no texto, o mesmo que aceitação de mitos e de pressupostos literários arcaicos que impedem o avanço no emprego de elementos estéticos.

  3. 38.

    Sugere-se, no texto, que é na obra Relatório da Coisa que Clarice Lispector passa a incorporar à narrativa dados autobiográficos como estratégia de desmistificação do preceito de autonomia da ficção.

  4. 39.

    O verbo parecer (l.10) poderia, corretamente, ter sido flexionado na 3.ª pessoa do plural, dado que o núcleo do sujeito da oração em que ele se insere é ampliado com elementos apositivos.

  5. 40.

    A ambiguidade presente no trecho “produzir um efeito de ‘mau gosto’, também descrito pela autora como um ‘susto de constrangimento’” (l.16-17) seria desfeita com a seguinte reescrita: produzir, conforme descrito pela autora, um efeito de “mau gosto” ou um “susto de constrangimento”.

1 (...) na questão de se o mundo é mais digno de riso oude pranto, e se à vista do mesmo mundo tem mais razão quemri, como ria Demócrito, ou quem chora, como chorava4Heráclito, eu, para defender, como sou obrigado, a parte dopranto, confessarei uma coisa e direi outra. Confesso que aprimeira propriedade do racional é o risível: e digo que a maior7impropriedade da razão é o riso. O riso é o final do racional, opranto é o uso da razão. (...) Mas se Demócrito era um homem tão grande entre os10homens e um filósofo tão sábio, e se não só via este mundo,mas tantos mundos, como ria? Poderá dizer-se que ele ria nãodeste nosso mundo, mas daqueles seus mundos.13 E com razão, porque a matéria de que eramcompostos os seus mundos imaginados, toda era de riso. Écerto, porém, que ele ria neste mundo e que se ria deste mundo.16Como, pois, se ria ou podia rir-se Demócrito do mesmo mundoou das mesmas coisas que via e chorava Heráclito? A mim,senhores, mo parece que Demócrito não ria, mas que19Demócrito e Heráclito ambos choravam, cada um ao seu modo. Que Demócrito não risse, eu o provo. Demócrito riasempre: logo não ria. A consequência parece difícil e evidente.22O riso, como dizem todos os filósofos, nasce da novidade e daadmiração, e cessando a novidade ou a admiração, cessatambém o riso; o como Demócrito se ria dos ordinários25desconcertos do mundo, o que é ordinário e se vê sempre, nãopode causar admiração nem novidade; segue-se que nunca ria,rindo sempre, pois não havia matéria que motivasse o riso.

Padre Antônio Vieira. Sermão da sexagésima. In: J. Verdasca (Org. e coord.). Sermões escolhidos. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 190-2.

Considerando a estrutura textual, a consistência argumentativa e as estruturas linguísticas do texto, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 41.

    Com o propósito explícito de tratar da “questão de se o mundo é mais digno de riso ou de pranto” (l.1-2), o autor argumenta em favor da conclusão de que o mundo, devido aos seus “ordinários desconcertos” (l.24-25), é mais digno de riso.

  2. 42.

    No período “Que Demócrito não risse, eu o provo” (l.20), o verbo provar complementa-se com uma estrutura em forma de objeto direto pleonástico, com uma oração servindo de referente para um pronome.

  3. 43.

    No período “Demócrito ria sempre: logo não ria.” (l.20-21), a “consequência” (l.21), à primeira vista ilógica, sustenta-se no emprego do advérbio “sempre”, o que se constata pelas explicações que se seguem no mesmo parágrafo.

    Item anulado pela banca

  4. 44.

    O verbo rir, empregado com regências diferentes no trecho “É certo, porém, que ele ria neste mundo e que se ria deste mundo” (l.14-15), tem, em ambas as ocorrências, o sentido de tratar ou considerar (alguém ou algo) com desdém; ridicularizar; zombar.

    Item anulado pela banca

Fragmento I 1 Macunaíma1 No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande4 escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro7 passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava: — Ai! Que preguiça!...10 e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho13 e Jiguê na força do homem.Fragmento II 9 Carta pras icamiabas1 Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas. Trinta de Maio de Mil Novecentos e Vinte e Seis, São Paulo.4 Senhoras: Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e a literatura desta missiva. Cumpre-nos, entretanto, iniciar estas7 linhas de saudade e muito amor, com desagradável nova. É bem verdade que na boa cidade de São Paulo — a maior do universo, no dizer de seus prolixos habitantes — não sois10 conhecidas como “icamiabas”, voz espúria, sinão que pelo apelativo de Amazonas; e de vós, se afirma, cavalgardes ginetes belígeros e virdes da Hélade clássica; e assim sois13 chamadas. Muito nos pesou a nós, Imperator vosso, tais dislates da erudição, porém heis de convir conosco que, assim, ficais mais heroicas e mais conspícuas, tocadas por essa plátina16 respeitável da tradição e da pureza antiga. (...) Macunaíma, Imperator

Mário de Andrade. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 13, 97 e 109.

Considerando os aspectos morfossintáticos e semânticos dos fragmentos apresentados, julgue o item a seguir.

  1. 45.

    Na linha 5 do fragmento I, destaca-se, por meio da partícula expletiva “é que”, o sujeito simples da oração absoluta “Essa criança é que chamaram de Macunaíma”.

  2. 46.

    No fragmento II, os termos “o endereço” (l.5) e “a literatura desta missiva” (l.6), no trecho “Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e a literatura desta missiva” (l.5-6), são complementos do verbo surpreender, assim como “vos”, que exerce a função de objeto indireto desse verbo.

  3. 47.

    No fragmento I, o período iniciado em “Si o incitavam a falar” (l.7) inclui uma frase em discurso direto como complemento de verbo dicendi, seguida de oração coordenada, que se inicia em outra linha do texto.

  4. 48.

    Os trechos “filho do medo da noite” (l.2) e “Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba” (l.10-11) exemplificam a linguagem conotativa que caracteriza o fragmento I.

  5. 49.

    No fragmento II, o autor da carta às icamiabas utiliza com ironia as expressões “voz espúria” (l.10) e “dislates da erudição” (l.14) para mostrar a posição degradante dessas guerreiras em face do epíteto que o homem branco lhes atribuiu.

1 Ah, o brasileiro mata e morre por uma frase. Há um velho e obtuso preconceito segundo o qual todas as frases querem dizer alguma coisa. Nem sempre. Certas frasesvivem, precisamente, de mistério e de suspense. A nitidez seria fatal. Escrevi isso para chegar a uma verdade eterna, ou seja: a pequena4causa, ou o motivo irrelevante, pode produzir um grande efeito. Não sei se vocês acompanharam, pelos jornais, o episódio do paletó. Era em Brasília. E para lá embarcou uma comissão dos“Cem mil” que ia avistar-se com o presidente Costa e Silva. Um dos seus membros era meu amigo, que pôs o seu melhor terno e a7sua melhor gravata. A comissão ia resolver problemas de alta transcendência, ia propor nobilíssimas e urgentíssimas reivindicações. E lá chegam os intelectuais e estudantes. Entra a comissão e vem o assessor da presidência espavorido. Os dois estudantesnão têm paletó, nem gravata. E, como o protocolo exigia uma coisa e outra, era preciso que ambos se compusessem.10 Pode, não pode, e criou-se o impasse. O diabo é que o problema era aparentemente insolúvel. Felizmente, surgiu a ideia:— dois contínuos emprestariam tanto o paletó como a gravata. Mas os estudantes não aceitaram. Absolutamente. Queriam serrecebidos sem paletó e sem gravata. Outros assessores vieram. Discute daqui, dali. Apelos patéticos.13 Vejam como um nada pode mudar a direção da História. De repente, os estudantes presos, o Calabouço, as Reformas, tudo,tudo passou para um plano secundário ou nulo. Os dois estudantes faziam pé firme. O paletó e a gravata eram agora “O inimigo”.Vesti-los seria a abjeção suprema, a humilhação total, a derrota irreversível.16 O rádio e a TV pediam paletós e gravatas, assim como quem pede remédios salvadores. Paletós de luxo e gravatas de Paris,de Londres, de Berlim foram doados. Mas os dois permaneciam inexpugnáveis. Gravata, não! Paletó, jamais! O Poder os esperavae, dócil ao protocolo, de gravata e paletó.19 Se um de nós por lá aparecesse, haveria de imaginar que tudo estava resolvido, e tinham sido atendidas as reivindicaçõesespecíficas da classe. Claro! Uma vez que se discutiam paletós e gravatas, como se aquilo fosse uma assembleia acadêmica dealfaiates, a “Grande Causa” estava vitoriosa. Libertados os estudantes, aberto, e de par em par, o Calabouço, e substituída toda a22estrutura do ensino. E continuava a “Resistência”, muito mais épica e muito mais obstinada do que a francesa na guerra. Até que, derepente, veio do alto a ordem: — “Manda entrar, mesmo sem paletó, mesmo sem gravata.” Era a vitória. E, por um momento, ospresentes tiveram a vontade de cantar o Hino Nacional.

Nelson Rodrigues. A frase. In: A cabra vadia – novas confissões. Rio de Janeiro: Agir, 2007, p. 267-70 (com adaptações).

Considerando os aspectos linguísticos e estilísticos do texto, bem como a argumentação nele desenvolvida, julgue (C ou E) os próximos itens.

  1. 50.

    O cronista ironiza tanto a causa dos estudantes quanto a decisão das autoridades, como comprovam os trechos “O paletó e a gravata eram agora ‘O inimigo’” (l.14) e “O rádio e a TV pediam paletós e gravatas, assim como quem pede remédios salvadores” (l.16).

  2. 51.

    A letra inicial maiúscula e as aspas na palavra “Resistência” (l.22) são recursos estilísticos empregados para destacar a atitude insurgente dos estudantes, comparada, no texto, à dos franceses na Segunda Guerra.

  3. 52.

    O trecho “a pequena causa, ou o motivo irrelevante, pode produzir um grande efeito” (l.3-4) poderia ser reescrito, sem prejuízo para a correção gramatical ou para os sentidos do texto, da seguinte forma: a causa pouco significativa, ou o pequeno motivo, pode provocar um resultado de extensa repercussão.

  4. 53.

    No segundo e no quarto parágrafos do texto, emprega-se o presente do indicativo com a mesma finalidade: a de realçar fatos ocorridos no passado.

(...)1Língua do meu Amor velosa e doce,que me convences de que sou frase,que me contornas, que me vestes quase,4como se o corpo meu de ti vindo me fosse.Língua que me cativas, que me enleiasos surtos de ave estranha,7em linhas longas de invisíveis teias,de que és, há tanto, habilidosa aranha...Língua-lâmina, língua-labareda,10língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...Força inféria e divinafaz com que o bem e o mal resumas,13língua-cáustica, língua-cocaína,língua de mel, língua de plumas?...Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,16amo-te como todas as mulhereste amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,pela carne de som que à ideia emprestas19e pelas frases mudas que proferesnos silêncios de Amor!...

Gilka Machado. Lépida e leve. In: Poesias completas. Rio de Janeiro: Cátedra/INL, 1978, p. 179.

Com relação às ideias e aos aspectos linguísticos do poema acima, julgue o item a seguir.

  1. 54.

    Na segunda estrofe, a linguagem poética é intensificada por metáforas representadas, entre outras formas, por palavras compostas por justaposição.

  2. 55.

    Na segunda estrofe, a língua é considerada uma força que, antagônica ao amor, sintetiza o bem e o mal.

  3. 56.

    Nos versos 4 e 16, o conector “como” introduz estruturas com sentido comparativo e conformativo, respectivamente.

  4. 57.

    Na primeira estrofe, tanto “ave” (v.6) quanto “aranha” (v.8) referem-se a “Língua” (v.5).

  5. 58.

    Em “que me vestes quase” (v.3), “que me enleias” (v.5) e em “Amo-te as sugestões gloriosas e funestas” (v.15), os pronomes oblíquos átonos estão empregados com valor possessivo.

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