Língua Portuguesa — CACD 2015

CEBRASPE · CACD – 1ª fase (TPS) · 56 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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1 Nestes quatrocentos anos de colonização literária,recebemos a influência de muitos países. Sempre tentamosreproduzir, com todas as minudências, a língua, as ideias, a4vida de outras terras. Não sei donde vem esse medo que temosde sermos nós mesmos. Queremos que nos tomem por outros. (...)7 Na literatura de ficção é que a falta de caráter dosbrasileiros se revelou escandalosamente. Em geral, os nossosescritores mostraram uma admirável ignorância das coisas que10estavam perto deles. Tivemos caboclos brutos semelhantes aosheróis cristãos e bem-falantes em excesso. Os patriotas doséculo passado, em vez de estudar os índios, estudaram tupi13nos livros e leram Walter Scott. Tivemos damas das caméliasem segunda mão. Tivemos paisagens inúteis em linguagemcampanuda, pores do sol difíceis, queimadas enormes, secas16cheias de adjetivos. José Veríssimo construiu um candeeiro emnão sei quantas páginas. Muito pouco — rios, poentes cor de sangue,19incêndios, candeeiros. Os ficcionistas indígenas engancharam-seregularmente na pintura dos caracteres. Não mostraram os22personagens por dentro: apresentaram o exterior deles, osolhos, os cabelos, os sapatos, o número de botões. Insistiramem pormenores desnecessários, e as figuras ficaram paradas.25 Os diálogos antigos eram uma lástima. Em certosromances, os indivíduos emudeciam, em outros, falavambonito demais, empregavam linguagem de discurso. Dois28estrangeiros, perdidos nas brenhas, discutiam política,sociologia, trapalhadas com pedantismo horrível, que seestiravam por muitas dezenas de folhas. Via-se perfeitamente31que o autor nunca tinha ouvido nada semelhante ao palavróriodos seus homens. Felizmente, vamo-nos afastando dessa absurda34contrafação de literaturas estranhas. Os romancistas atuaiscompreenderam que, para a execução de obra razoável, nãobastam retalhos de coisas velhas e novas importadas da França,37da Inglaterra e da Rússia. (...) O que é certo é que o romance do Nordeste existe e40vai para diante. As livrarias estão cheias de nomes novos. Nãoé razoável pensarmos que toda essa gente escreva porque umdia o Sr. José Américo publicou um livro que foi notado com43espanto no Rio: — Um romance do Nordeste! Que coisaextraordinária!

Graciliano Ramos. In: Thiago Mio Salla (Org.). Garranchos/Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 138-9 (com adaptações).

Com base nas ideias desenvolvidas no texto anterior, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. 1.

    Graciliano Ramos, ao mencionar fatos que revelam a influência da visão eurocêntrica na literatura de ficção produzida no Brasil, aponta a “falta de caráter dos brasileiros” (l. 7 e 8), expressão em que, dados os sentidos do texto, o vocábulo “caráter” deve ser interpretado na acepção de falta de qualidade peculiar.

    Item anulado pela banca

  2. 2.

    Depreende-se do texto que, segundo o autor, a colonização cultural no Brasil ultrapassou o período da colonização política, fato evidenciado na dificuldade de afirmação da identidade literária brasileira.

  3. 3.

    A sentença “José Veríssimo construiu um candeeiro em não sei quantas páginas” (l. 16 e 17) é metáfora que expressa a crítica de Graciliano à descrição pormenorizada utilizada por José Veríssimo, em detrimento da construção de personagens verossímeis e de obras em cujo enredo ações e diálogos fossem adequados às figuras nelas retratadas.

  4. 4.

    A frase “Tivemos damas das camélias em segunda mão” (l. 13 e 14) expressa, em linguagem figurada, o que Graciliano denomina “contrafação de literaturas estranhas” (l.34) e, como indica o emprego da expressão “em segunda mão”, o desapreço do autor à produção literária que revelava tal influência.

1 A distinção entre espetáculo (manifestação legítimada cultura) e simulacro (entretenimento da indústria cultural)tornou-se corrente entre os analistas que se ancoram nos4valores modernistas para a compreensão da pós-modernidade.Segundo eles, no campo da produção simbólica e da produçãopropriamente cultural, a pós-modernidade estaria se7manifestando e se definindo pela proliferação abusiva eavassaladora de imagens eletrônicas, de simulacros, e mais emais estaria privilegiando-os. A distinção entre espetáculo e10simulacro é correta e deve ser acatada, pois ajuda a melhorcompreender o universo simbólico e cultural dos nossos dias. Como quer Fredric Jameson em Pós-modernidade e13sociedade de consumo, o campo da experiência do homematual se circunscreve às paredes da caverna de Platão: o sujeitopós-moderno já não fita diretamente, com seus próprios olhos,16o mundo real à procura do referente, da coisa em si, mas éforçado a buscar as suas imagens mentais do mundo nasparedes do seu confinamento. Para ele, permanece a concepção19triádica que temos do signo (significante, significado ereferente). No entanto, em lugar de se privilegiar o referente,como acontece nas teorias clássicas e modernistas do realismo,22afirma-se a onipresença da imagem, isto é, da cadeiasignificante. A realidade (se não for abusivo o uso desseconceito neste contexto) se dá a ver mais e mais em25representações de representações, como querem ainda osteóricos da pós-modernidade. A distinção entre espetáculo e simulacro é correta; no28entanto, em mãos de teóricos modernos, traz em si umaestratégia de avaliação negativa da pós-modernidade, muitasvezes pouco discreta. Ela visa privilegiar o reino da31experiência viva, in corpore, e desclassificar a experiência pelaimagem, in absentia. Visa também classificar o espetáculo(que se dá em museus, salas de teatro, de concerto etc.) como34forma autêntica de cultura e desclassificar o simulacro (que sedá sobretudo pelo cinema ou vídeo e pela televisão) comoarremedo bastardo produzido pela indústria cultural. O37primeiro leva à reflexão e o outro serve para matar o tempo.Visa ainda e finalmente a qualificar os meios de comunicaçãode massa como os principais responsáveis pelo aviltamento da40vida pública. Para os idealizadores da distinção e defensoresdo espetáculo está em jogo preservar a todo custo, numasociedade que se quer democrática, a possibilidade de uma43opinião pública, e esta só pode se dar plena em uma críticaavassaladora dos meios de comunicação de massa, quedivulgam à exaustão imagens e mais imagens simulacros —46para o consumo indigesto das massas. Nos países avançados, o jogo entre espetáculo esimulacro, se não tem como vencedor o espetáculo, termina49certamente pelo empate. Bibliotecas, museus, salas de teatro,de concerto, competem — e mais importante: convivem —,com as salas de cinema, as locadoras de vídeo e a televisão.52Existe público pagante para o espetáculo caríssimo daencenação de uma grande ópera em Berlim, Paris ou NovaIorque, e existe um grande público não privilegiado55(economicamente, geograficamente, culturalmente etc.) para aretransmissão pela TV desse espetáculo ou de outros. Certos“espetáculos” já nem existem como tal, já surgem como58simulacros, isto é, produzidos só para a transmissão eletrônica.59 No Brasil, a disputa entre espetáculo e simulacro,entre modernidade cultural e sociedade de massa, já tem a suahistória. Começa e passa pela discussão em torno do consumo62extremamente restrito do produto literário — o livro — pelomercado brasileiro. Antonio Candido, em ensaio de 1973,publicado em plena ditadura militar e em época de65alfabetização pelo Mobral, discutia a relação entre literatura esubdesenvolvimento e chamava a atenção para o fato de que,nos países latino-americanos, criava-se uma “condição68negativa prévia” para a fruição de obras literárias — essacondição era o número restrito de alfabetizados. O escritormoderno, da periferia subdesenvolvida, estava fadado a ser71“um produtor para minorias”, já que as grandes massasestavam “mergulhadas numa etapa folclórica de comunicaçãooral”. Entre parênteses, lembre-se de que, para os pensadores74do iluminismo, o acesso à obra de arte e a subsequente fruiçãodela significavam um estágio superior no processo deemancipação do indivíduo.

Silviano Santiago. Intensidades discursivas. In: O cosmopolitismo do pobre. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 125-7 (com adaptações).

Com relação aos sentidos e ao emprego de palavras e expressões no texto de Silviano Santiago, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. 5.

    O verbo circunscrever foi empregado no primeiro período do segundo parágrafo com o sentido de originar, ser a causa de, derivar.

  2. 6.

    Dados os sentidos do texto e o sentido de oni-, a expressão “a onipresença da imagem” (l.22) deve ser interpretada, no texto, como a presença da imagem em todos os lugares e dimensões.

  3. 7.

    A expressão “concepção triádica” (l. 18 e 19), extratextualmente, poderia também ser utilizada para representar a Santíssima Trindade, doutrina acolhida pela maioria das igrejas cristãs.

  4. 8.

    As expressões latinas “in corpore” (l.31) e “in absentia” (l.32) são utilizadas, no texto, com sentido antitético.

1 Nestes quatrocentos anos de colonização literária,recebemos a influência de muitos países. Sempre tentamosreproduzir, com todas as minudências, a língua, as ideias, a4vida de outras terras. Não sei donde vem esse medo que temosde sermos nós mesmos. Queremos que nos tomem por outros. (...)7 Na literatura de ficção é que a falta de caráter dosbrasileiros se revelou escandalosamente. Em geral, os nossosescritores mostraram uma admirável ignorância das coisas que10estavam perto deles. Tivemos caboclos brutos semelhantes aosheróis cristãos e bem-falantes em excesso. Os patriotas doséculo passado, em vez de estudar os índios, estudaram tupi13nos livros e leram Walter Scott. Tivemos damas das caméliasem segunda mão. Tivemos paisagens inúteis em linguagemcampanuda, pores do sol difíceis, queimadas enormes, secas16cheias de adjetivos. José Veríssimo construiu um candeeiro emnão sei quantas páginas. Muito pouco — rios, poentes cor de sangue,19incêndios, candeeiros. Os ficcionistas indígenas engancharam-seregularmente na pintura dos caracteres. Não mostraram os22personagens por dentro: apresentaram o exterior deles, osolhos, os cabelos, os sapatos, o número de botões. Insistiramem pormenores desnecessários, e as figuras ficaram paradas.25 Os diálogos antigos eram uma lástima. Em certosromances, os indivíduos emudeciam, em outros, falavambonito demais, empregavam linguagem de discurso. Dois28estrangeiros, perdidos nas brenhas, discutiam política,sociologia, trapalhadas com pedantismo horrível, que seestiravam por muitas dezenas de folhas. Via-se perfeitamente31que o autor nunca tinha ouvido nada semelhante ao palavróriodos seus homens. Felizmente, vamo-nos afastando dessa absurda34contrafação de literaturas estranhas. Os romancistas atuaiscompreenderam que, para a execução de obra razoável, nãobastam retalhos de coisas velhas e novas importadas da França,37da Inglaterra e da Rússia. (...) O que é certo é que o romance do Nordeste existe e40vai para diante. As livrarias estão cheias de nomes novos. Nãoé razoável pensarmos que toda essa gente escreva porque umdia o Sr. José Américo publicou um livro que foi notado com43espanto no Rio: — Um romance do Nordeste! Que coisaextraordinária!

Graciliano Ramos. In: Thiago Mio Salla (Org.). Garranchos/Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 138-9 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os próximos itens, relativos a aspectos gramaticais do texto de Graciliano Ramos.

  1. 9.

    Os termos “escandalosamente” (l.8) e “bonito” (l.27) exercem, nas orações a que pertencem, a mesma função sintática.

  2. 10.

    Dada a posição que ocupa na oração, o termo adverbial “Na literatura de ficção” (l.7) deveria estar isolado por vírgula, se atendido o rigor gramatical.

  3. 11.

    A expressão “toda essa gente” (l.41) retoma o complemento do adjetivo “cheias” no segmento de sentido conotativo “cheias de nomes novos” (l.40).

  4. 12.

    O termo “de outras terras” (l.4) especifica os três núcleos do complemento do verbo “reproduzir” (l.3) — “língua”, “ideias” e “vida”.

1 Celso Cunha tinha, na minha geração literária, aposição que, na geração anterior à nossa, coube a Souza daSilveira. Ou seja: a do mestre que, conhecendo profundamente4a língua portuguesa, nas suas minúcias e no seu conjunto,associou a esse saber admirável a sensibilidade de quemnascera para apreciá-la na condição de obra de arte.7 Antes do mestre das Lições de Português, tivéramosaqui as sucessivas gerações dos professores que seconsideravam exímios na colocação dos pronomes, na guerra10sistemática aos galicismos, na sujeição aos modelos clássicos,e, com isto, impunham mais o terror gramatical que o saberverdadeiro.13 Houve quem passasse a escrever registo, em vezde registro, e preguntar, em vez de perguntar, porque assimse escrevia em Portugal. Já ao tempo de José de Alencar,16um publicista ríspido, José Feliciano de Castilho, viera deLisboa para o Rio de Janeiro, com a missão de ensinar-nos aescrever como se escrevia em Portugal. Daí a reação do19romancista cearense no prefácio de seus Sonhos d’Ouro, em1872: “Censurem, piquem, ou calem-se, como lhes aprouver.Não alcançarão jamais que eu escreva, neste meu Brasil, coisa22que pareça vinda em conserva lá da outra banda, como a frutaque nos mandam em lata.”

Josué Montello. Mestre Celso Cunha. In: Cilene da Cunha Pereira, Paulo Roberto Dias Pereira (Orgs.). Miscelânea de estudos linguísticos, filológicos e literários in memoriam Celso Cunha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995, p. 57-8 (com adaptações).

Com relação a aspectos gramaticais do texto acima, julgue (C ou E) os próximos itens.

  1. 13.

    Os elementos semântico-sintáticos do fragmento de texto apresentado são insuficientes para se depreender a referência da expressão “mestre das Lições de Português” (l.7).

  2. 14.

    Em razão do arranjo sintático na expressão “na geração anterior à nossa” (l.2), torna-se obrigatório o emprego do sinal indicativo de crase, apesar de esta preceder um pronome possessivo.

  3. 15.

    Na oração ‘como lhes aprouver’ (l.20), foi empregada uma forma flexionada do verbo aprazer, cujo radical é o mesmo que o do adjetivo aprazível, de uso corrente na atualidade.

  4. 16.

    O emprego da expressão explicativa “Ou seja” (l.3) no início de período revela que, em 1995, ano de publicação do texto, já estava em curso essa variante sintática — substituição da vírgula que deveria isolar essa expressão por ponto final —, a qual só recentemente foi abonada nas gramáticas normativas, desde que, no período assim construído, esteja explícita a oração principal.

1 Num carro, a caminho do Alto da Boa Vista, sigocom alguns jovens — alguns extremamente jovens — que seembriagam e rompem ampolas de Kelene, em cujo rótulo leio4anestesiante. Sim, é fértil em recursos essa mocidade, mas doque precisamente procura ela se anestesiar? Nenhum delessofre de algum mal profundo — e, no entanto, esse mal pior de7não sofrer de mal nenhum... — e são hábeis e versados nessascoisas de éter e entorpecentes, pronunciando esse nome —Kelene — com familiaridade, nome sem dúvida mais que usual10nos hospitais, mas que ouço pela primeira vez e onde julgodistinguir inquietas ressonâncias, sombrias previsões, o não seique tom amputado e doloroso, que reflete salas de hospitais,13asilos de alienados e antros escuros de vícios, todos os lugaresenfim onde a alma impaciente pode passear sem arroubosfinais seus gritos destruidores. Kelene, mesmo inocente, tem,16no frio do seu jato efêmero e cristalino, toda uma melodiasecreta de delírios fúnebres, alvorecer em êxtase edesabrochamento de deliquescências reprimidas. E o que me19espanta é que esses jovens moderados, de atitudes e costumesmais que burgueses, a isto se atirem com gritos de prazer eestremecimentos animais: como que da sombra alguma coisa22mais primitiva e mais antiga do que o próprio homem acordaem suas faces necrosadas o gosto do imundo.

Lúcio Cardoso. Diário completo. Rio de Janeiro: INL, 1970, p. 194-5 (com adaptações).

Com base nas ideias desenvolvidas no texto acima, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 17.

    No texto, não há qualquer evidência de que o narrador, possivelmente mais idoso que as demais pessoas que o acompanham, seja usuário do produto descrito.

  2. 18.

    Ao mencionar que o produto Kelene provoca “toda uma melodia secreta de delírios fúnebres” (l. 16 e 17) e “alvorecer em êxtase” (l.17), o narrador salienta sensações paradoxais relacionadas à morte e à vida, respectivamente.

  3. 19.

    O narrador informa que o produto Kelene raramente é utilizado em tratamento psiquiátrico.

  4. 20.

    O texto evoca o estranhamento do narrador em relação a jovens que não teriam qualquer razão perceptível para usar Kelene, bem como ao fato de que nenhum dos jovens ofereceu-lhe o anestesiante.

1 A distinção entre espetáculo (manifestação legítimada cultura) e simulacro (entretenimento da indústria cultural)tornou-se corrente entre os analistas que se ancoram nos4valores modernistas para a compreensão da pós-modernidade.Segundo eles, no campo da produção simbólica e da produçãopropriamente cultural, a pós-modernidade estaria se7manifestando e se definindo pela proliferação abusiva eavassaladora de imagens eletrônicas, de simulacros, e mais emais estaria privilegiando-os. A distinção entre espetáculo e10simulacro é correta e deve ser acatada, pois ajuda a melhorcompreender o universo simbólico e cultural dos nossos dias. Como quer Fredric Jameson em Pós-modernidade e13sociedade de consumo, o campo da experiência do homematual se circunscreve às paredes da caverna de Platão: o sujeitopós-moderno já não fita diretamente, com seus próprios olhos,16o mundo real à procura do referente, da coisa em si, mas éforçado a buscar as suas imagens mentais do mundo nasparedes do seu confinamento. Para ele, permanece a concepção19triádica que temos do signo (significante, significado ereferente). No entanto, em lugar de se privilegiar o referente,como acontece nas teorias clássicas e modernistas do realismo,22afirma-se a onipresença da imagem, isto é, da cadeiasignificante. A realidade (se não for abusivo o uso desseconceito neste contexto) se dá a ver mais e mais em25representações de representações, como querem ainda osteóricos da pós-modernidade. A distinção entre espetáculo e simulacro é correta; no28entanto, em mãos de teóricos modernos, traz em si umaestratégia de avaliação negativa da pós-modernidade, muitasvezes pouco discreta. Ela visa privilegiar o reino da31experiência viva, in corpore, e desclassificar a experiência pelaimagem, in absentia. Visa também classificar o espetáculo(que se dá em museus, salas de teatro, de concerto etc.) como34forma autêntica de cultura e desclassificar o simulacro (que sedá sobretudo pelo cinema ou vídeo e pela televisão) comoarremedo bastardo produzido pela indústria cultural. O37primeiro leva à reflexão e o outro serve para matar o tempo.Visa ainda e finalmente a qualificar os meios de comunicaçãode massa como os principais responsáveis pelo aviltamento da40vida pública. Para os idealizadores da distinção e defensoresdo espetáculo está em jogo preservar a todo custo, numasociedade que se quer democrática, a possibilidade de uma43opinião pública, e esta só pode se dar plena em uma críticaavassaladora dos meios de comunicação de massa, quedivulgam à exaustão imagens e mais imagens simulacros —46para o consumo indigesto das massas. Nos países avançados, o jogo entre espetáculo esimulacro, se não tem como vencedor o espetáculo, termina49certamente pelo empate. Bibliotecas, museus, salas de teatro,de concerto, competem — e mais importante: convivem —,com as salas de cinema, as locadoras de vídeo e a televisão.52Existe público pagante para o espetáculo caríssimo daencenação de uma grande ópera em Berlim, Paris ou NovaIorque, e existe um grande público não privilegiado55(economicamente, geograficamente, culturalmente etc.) para aretransmissão pela TV desse espetáculo ou de outros. Certos“espetáculos” já nem existem como tal, já surgem como58simulacros, isto é, produzidos só para a transmissão eletrônica.59 No Brasil, a disputa entre espetáculo e simulacro,entre modernidade cultural e sociedade de massa, já tem a suahistória. Começa e passa pela discussão em torno do consumo62extremamente restrito do produto literário — o livro — pelomercado brasileiro. Antonio Candido, em ensaio de 1973,publicado em plena ditadura militar e em época de65alfabetização pelo Mobral, discutia a relação entre literatura esubdesenvolvimento e chamava a atenção para o fato de que,nos países latino-americanos, criava-se uma “condição68negativa prévia” para a fruição de obras literárias — essacondição era o número restrito de alfabetizados. O escritormoderno, da periferia subdesenvolvida, estava fadado a ser71“um produtor para minorias”, já que as grandes massasestavam “mergulhadas numa etapa folclórica de comunicaçãooral”. Entre parênteses, lembre-se de que, para os pensadores74do iluminismo, o acesso à obra de arte e a subsequente fruiçãodela significavam um estágio superior no processo deemancipação do indivíduo.

Silviano Santiago. Intensidades discursivas. In: O cosmopolitismo do pobre. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 125-7 (com adaptações).

Com relação às ideias desenvolvidas no texto anterior, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 21.

    Infere-se do texto que uma das características marcantes da pós-modernidade é a valorização do referente, no contexto das representações do real.

  2. 22.

    O Brasil, segundo o autor do texto, é um dos países que poderá resolver a oposição entre espetáculo e simulacro, uma vez que “já tem a sua história” (l. 60 e 61).

  3. 23.

    O autor do texto comenta que teóricos modernos da pós-modernidade valorizam a noção de simulacro. Esses mesmos teóricos passam a dirigir críticas à noção de espetáculo (que ocorre, por exemplo, em museus).

  4. 24.

    Ao comentar a distinção entre espetáculo e simulacro, o autor demonstra, com base em analistas do tema, como a pós-modernidade se manifesta de modo evidente por meio de uma cultura de espetáculo a ser usufruída pela sociedade.

Em setembro de 1916, Fernando Pessoa pensava que o n.º 3 da revista Orpheu ainda poderia vir à luz. E, de fato, chega a entrar no prelo, imprimindo-se apenas algumas folhas. No sumário, como se depreende da carta a Cortes Rodrigues de 4 desse mês, deveriam figurar poemas ingleses do profeta do “supra-Camões” e “colaboração variada” do seu “velho e infeliz amigo Álvaro de Campos”. Vale a pena reparar nos adjetivos deploradores que o poeta junta, nessa data, ao nome do seu heterônimo dileto. Parece-me ser-nos lícito pensar que nesta altura já Álvaro de Campos dá indícios de “velhice” e “infelicidade”, ou seja, que Álvaro de Campos começa a despir a pele que lhe vestiram e, pelo menos como poeta, a tomar consciência de que a mistificação “sensacionisto-futurista” lhe não assenta bem. Daí que ao Fernando Pessoa não de todo desenganado dos “ismos” e ao mesmo Álvaro de Campos doutrinário, o Álvaro de Campos poeta se lhes entremostre “velho” e “infeliz”.

Seja como for, o certo é que em setembro de 1916, Pessoa, que se tem por “reconstruído” nessa altura, parece decidido a “fazer uma grande alteração na (sua) vida” como confidencia ao amigo micaelense: “vou tirar o acento circunflexo do meu apelido”. Realmente, “Pessôa” aparecera sempre, até então, ortografado com acento circunflexo. Grande alteração na vida: “Pessoa” iria passar a ser ortografado sem esse inútil apêndice! Sempre à beira do paradoxo e da boutade, Fernando Pessoa não perde a ocasião de ir além de si mesmo — de se mistificar a si próprio. Era então o momento de tomar tão grave medida. Com efeito, tendo apenas publicado com o seu verdadeiro nome, a esta data, além das Impressões do Crepúsculo, uns versos mais, o fato de ir publicar agora na Orpheu dois poemas ingleses — “muito indecentes, e, portanto, impublicáveis em Inglaterra” — levava-o a achar melhor “desadaptar-se” de uma partícula que lhe prejudicava a projeção cosmopolita do nome.

Como a Orpheu 3 não chega, porém, a vir à luz, Fernando Pessoa sem circunflexo tem de esperar pela publicação da revista Centauro, lançada em fins de 1916 (Outubro–Novembro–Dezembro), para aparecer, de fato, como autor dos Passos da Cruz.

Pormenor chistoso, boutade do incansável mistificador Fernando Pessoa, esta “desadaptação” ao circunflexo corresponde, todavia, a qualquer coisa mais importante do que parece. O poeta de Gládio atinge por esta altura a sua maioridade poética.

João Gaspar Simões. Vida e obra de Fernando Pessoa. Lisboa: Livraria Bertrand, 1981, 5.ª edição, p. 393-4 (com adaptações).

A respeito das ideias desenvolvidas no texto acima, julgue (C ou E) os itens subsecutivos.

  1. 25.

    No texto, o autor informa que o abandono do acento circunflexo no sobrenome representou, para o poeta português, uma revolução estética considerável, que faria do autor de Passos da Cruz um escritor muito mais vanguardista do que antes.

  2. 26.

    Fernando Pessoa escreveu poemas que não poderiam jamais ser traduzidos para a língua inglesa, uma vez que na Inglaterra aqueles mesmos poemas seriam considerados muito indecentes.

  3. 27.

    Do texto, cujo autor afirma que Fernando Pessoa não conseguiu ver impressos os seus poemas no número 3 da revista Orpheu, mesmo porque aquela edição acabou não sendo publicada, não se pode inferir o motivo da não publicação da revista.

  4. 28.

    Segundo o autor do texto, durante todo o tempo em que utilizou o acento circunflexo no sobrenome, o poeta português estava sendo paradoxal e querendo provocar humor por conta daquele erro de acentuação.

1 Distingo, no português histórico, dois períodosprincipais: o português antigo, que se escreveu até os primeirosanos do século XVI, e o português moderno. Robustecida e4enriquecida de expressões novas, a linguagem usada nascrônicas desse segundo período, que relatam osdescobrimentos em África e Ásia e os feitos das armas7lusitanas no Oriente, culmina no apuro e no gosto do portuguêsmoderno d’Os Lusíadas (1572). É o século da Renascençaliterária, e tudo quanto ao depois se escreve é a continuação da10linguagem desse período. E como não ficou estacionário oportuguês moderno, denominou-se quinhentista, seiscentista,setecentista a linguagem própria a cada era. Reservo a13denominação de português hodierno para as mudançascaracterísticas do falar atual criadas ou fixadas recentemente,ou recebidas do século XIX, ou que por ventura remontam ao16século XVIII. Limites entre os diversos períodos não podem sertraçados com rigor. Ignoram-se a data ou o momento exato do19aparecimento de qualquer alteração linguística. Neste ponto,nunca será a linguagem escrita, dada a sua tendênciaconservadora, espelho fiel do que se passa na linguagem22falada. Surge a inovação, formulada acaso por um ou poucosindivíduos; se tem a dita de agradar, não tarda a generalizar-seo seu uso no falar do povo. A gente culta e de fina casta25repele-a, a princípio, mas, com o tempo, sucumbe ao contágio.Imita o vulgo, se não escrevendo com meditação, em todo ocaso no trato familiar e falando espontaneamente. Decorrem28muitos anos, até que por fim a linguagem literária, não vendorazão para enjeitar o que todo o mundo diz, se decide a aceitara mudança também. Tal é, a meu ver, a explicação não31somente de fatos isolados, mas ainda do aparecimento de todoo português moderno. Não é de crer que poucos anos depois de 1500, quase34que bruscamente e sem influxo de idioma estranho, cessassemem Portugal inveterados hábitos de falar e se trocasse oportuguês antigo em português moderno. Nem podemos37atribuir a escritores, por muito engenho artístico que tivessem,aptidões e autoridade para reformarem, a seu sabor, o idiomapátrio e sua gramática. Consistiria a sua obra antes em elevar40à categoria de linguagem literária o falar comum,principalmente o das pessoas educadas, tornando-o maiselegante e desterrando locuções que lhe dessem aspecto menos43nobre. Mas os escritores antigos evitavam afastar-se da práticarecebida de seus avós e, posto que muitas concessões tivessemde fazer ao uso para serem entendidos, propendiam mais a46utilizar-se de recursos artificiais que dessem ao estilo certo arde gravidade e acima do vulgar. O século XVI, descerradas as cortinas que encobriam49o espetáculo de novos mundos, e dada a facilidade de pôr aleitura das obras literárias ao alcance de todos, graças aodesenvolvimento da imprensa, devia fazer cessar a superstição52do passado, mostrar o caminho do futuro e ditar a necessidadede se exprimirem os escritores em linguagem que todosentendessem. Resolveram-se a fazê-lo. Serviram-se da55linguagem viva de fato, como o demonstram os diálogos dascomédias de então, que reproduzem o falar tradicional da gentedo povo. Trariam estes diálogos os característicos gramaticais58do português antigo, se fosse este ainda o idioma corrente.

M. Said Ali. Prólogo da Lexeologia do português histórico, 1.ª ed. 1921. In: Gramática histórica da língua portuguesa. 8.ª ed. rev. e atual. por Mário Eduardo Viaro. São Paulo: Companhia Melhoramentos; Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 2001, p. 17-8 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens a seguir, a respeito de elementos coesivos e do vocabulário do texto de M. Said Ali.

  1. 29.

    Em textos contemporâneos, a expressão “por ventura” (l.15) tem como variante o vocábulo porventura, cujo sentido equivale a talvez.

  2. 30.

    O vocábulo “inveterados” (l.35) foi empregado como sinônimo de obsoletos, podendo ser substituído por essa palavra sem prejuízo para o sentido e para a correção gramatical do texto.

  3. 31.

    As formas verbais “sucumbe” (l.25) e “desterrando” (l.42), que poderiam ser corretamente substituídas, respectivamente, por não resiste e livrando-se de, foram assim empregadas no texto: a primeira, em sentido denotativo, e a segunda, em sentido conotativo.

  4. 32.

    Na linha 17, a expressão “os diversos períodos” refere-se não só à oposição entre português antigo e moderno, mas também aos períodos que compõem o português moderno, como o seiscentista, o setecentista e até o do português hodierno.

1 O subúrbio de S. Geraldo, no ano de 192..., jámisturava ao cheiro de estrebaria algum progresso. Quantomais fábricas se abriam nos arredores, mais o subúrbio se4erguia em vida própria, sem que os habitantes pudessem dizerque transformação os atingia. Os movimentos já se haviamcongestionado e não se poderia atravessar uma rua sem7desviar-se de uma carroça que os cavalos vagarosos puxavam,enquanto um automóvel impaciente buzinava atrás lançandofumaça. Mesmo os crepúsculos eram agora enfumaçados e10sanguinolentos. De manhã, entre os caminhões que pediampassagem para a nova usina, transportando madeira e ferro, ascestas de peixe se espalhavam pela calçada, vindas, através da13noite, de centros maiores. Dos sobrados desciam mulheresdespenteadas com panelas, os peixes eram pesados quase namão, enquanto os vendedores em mangas de camisa gritavam16os preços. E quando, sobre o alegre movimento da manhã,soprava o vento fresco e perturbador, dir-se-ia que a populaçãointeira se preparava para um embarque.

Clarice Lispector. A cidade sitiada. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 15-6.

Com referência às ideias e às estruturas do texto acima, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 33.

    A relação estabelecida entre as duas primeiras orações do segundo período do texto expressa a proporcionalidade da mudança em curso no subúrbio de S. Geraldo.

  2. 34.

    No primeiro período do texto, Clarice Lispector, em linguagem figurada, refere-se ao contexto híbrido do subúrbio de S. Geraldo na década de 20 do século passado, resultante da chegada do progresso.

  3. 35.

    Sem prejuízo para o sentido da oração “que transformação os atingia” (l.5), a autora poderia ter optado pelo emprego do artigo a logo após o termo “que”, empregado como conjunção integrante.

  4. 36.

    Os segmentos “um automóvel impaciente buzinava” (l.8) e “entre os caminhões que pediam passagem” (l. 10 e 11) expressam a mesma figura de linguagem.

1 No modesto apartamento em que mora na rua Condede Bonfim, Graciliano Ramos mostrou-me alguns originais dosseus trabalhos. Via de regra, escreve em papel sem pautas, de4um só golpe, ao calor da composição. A forma definitiva vemdepois. Emenda muito. E até mesmo quando passa a limpo,com sua letra explicativa de escrevente de cartório, corta muita7coisa, tudo o que depois vai achando ruim. Às vezes riscalinhas inteiras. As palavras morrem sob o traço forte de tinta deuma igualdade assombrosa, como feito à régua.10 Graciliano guarda os originais dos livros jápublicados. Assim pude verificar um curioso detalhe da feiturade Vidas Secas. Os capítulos, datados, indicaram-me a13ausência de seguimento na elaboração da narrativa. “Baleia”,o nono capítulo, foi o primeiro a ser escrito, em 4 de maio de1937. Um mês e pouco depois, precisamente no dia 18 de16junho, escreveu o quarto capítulo, “Sinha Vitória”. E assimtodo o livro, que não obedeceu a nenhum plano antecipado. — Escrevi a história de um cachorro de meu avô —19conta o romancista, cigarro Selma com ponta de cortiça entreos dedos queimados de fumo. — Os episódios foram-seamontoando. O livro foi crescendo. E assim arrumei Vidas22Secas, que pensei em chamar “O mundo coberto de penas”,título de um dos capítulos do livro. A vida de Graciliano Ramos está sempre presente na25sua obra, no que ela tem de mais humano e doloroso. — Caetés é uma história de Palmeira dos Índios. SãoBernardo se passa em Viçosa. Angústia tem um pouco do28Rio, um pouco de Maceió e muito de mim mesmo. VidasSecas são cenas da vida de Buíque [Pernambuco]. Todos esses romances exigiram do autor um longo e31penoso trabalho de composição. — Não sou como José Américo — disse —, queprimeiro escreve na cabeça e depois transporta o livro para o34papel. A obra de criação, para mim, é quase sempre imprevista.E espontânea. Refaço tudo, depois. Escrever dá muito trabalho.A gente muitas vezes não sabe o que vai fazer. Sai tudo diverso37do que se imaginou.

Francisco de Assis Barbosa. Graciliano Ramos, aos cinquenta anos. Reportagem biográfica. In: jornal Diretrizes, Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional RJ, 1942. Apud: Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla (Orgs.). Conversas – Graciliano Ramos. 3.ª ed. R i o d e J a n e i r o : R e c o r d , 2 0 1 4 , p . 1 1 9 - 2 0 .

A respeito da linguagem e do vocabulário empregados no texto anterior, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. 37.

    No terceiro parágrafo, o repórter abandona a narrativa e, sem intervir, reproduz, em discurso direto, o relato de Graciliano Ramos acerca da produção de Vidas Secas.

  2. 38.

    Embora contenha trechos de fala, o texto está isento de coloquialismo.

  3. 39.

    No primeiro parágrafo, o emprego, em sentido figurado, do substantivo “calor” (l.4) e da forma verbal “morrem” (l.8) contribuiu para a expressividade da linguagem dos segmentos em que esses vocábulos se inserem.

  4. 40.

    Depreende-se que a qualidade de “explicativa” (l.6), atribuída à letra de Graciliano Ramos pelo autor do texto, foi empregada com o sentido de clara, legível, inteligível.

1 Distingo, no português histórico, dois períodosprincipais: o português antigo, que se escreveu até os primeirosanos do século XVI, e o português moderno. Robustecida e4enriquecida de expressões novas, a linguagem usada nascrônicas desse segundo período, que relatam osdescobrimentos em África e Ásia e os feitos das armas7lusitanas no Oriente, culmina no apuro e no gosto do portuguêsmoderno d’Os Lusíadas (1572). É o século da Renascençaliterária, e tudo quanto ao depois se escreve é a continuação da10linguagem desse período. E como não ficou estacionário oportuguês moderno, denominou-se quinhentista, seiscentista,setecentista a linguagem própria a cada era. Reservo a13denominação de português hodierno para as mudançascaracterísticas do falar atual criadas ou fixadas recentemente,ou recebidas do século XIX, ou que por ventura remontam ao16século XVIII. Limites entre os diversos períodos não podem sertraçados com rigor. Ignoram-se a data ou o momento exato do19aparecimento de qualquer alteração linguística. Neste ponto,nunca será a linguagem escrita, dada a sua tendênciaconservadora, espelho fiel do que se passa na linguagem22falada. Surge a inovação, formulada acaso por um ou poucosindivíduos; se tem a dita de agradar, não tarda a generalizar-seo seu uso no falar do povo. A gente culta e de fina casta25repele-a, a princípio, mas, com o tempo, sucumbe ao contágio.Imita o vulgo, se não escrevendo com meditação, em todo ocaso no trato familiar e falando espontaneamente. Decorrem28muitos anos, até que por fim a linguagem literária, não vendorazão para enjeitar o que todo o mundo diz, se decide a aceitara mudança também. Tal é, a meu ver, a explicação não31somente de fatos isolados, mas ainda do aparecimento de todoo português moderno. Não é de crer que poucos anos depois de 1500, quase34que bruscamente e sem influxo de idioma estranho, cessassemem Portugal inveterados hábitos de falar e se trocasse oportuguês antigo em português moderno. Nem podemos37atribuir a escritores, por muito engenho artístico que tivessem,aptidões e autoridade para reformarem, a seu sabor, o idiomapátrio e sua gramática. Consistiria a sua obra antes em elevar40à categoria de linguagem literária o falar comum,principalmente o das pessoas educadas, tornando-o maiselegante e desterrando locuções que lhe dessem aspecto menos43nobre. Mas os escritores antigos evitavam afastar-se da práticarecebida de seus avós e, posto que muitas concessões tivessemde fazer ao uso para serem entendidos, propendiam mais a46utilizar-se de recursos artificiais que dessem ao estilo certo arde gravidade e acima do vulgar. O século XVI, descerradas as cortinas que encobriam49o espetáculo de novos mundos, e dada a facilidade de pôr aleitura das obras literárias ao alcance de todos, graças aodesenvolvimento da imprensa, devia fazer cessar a superstição52do passado, mostrar o caminho do futuro e ditar a necessidadede se exprimirem os escritores em linguagem que todosentendessem. Resolveram-se a fazê-lo. Serviram-se da55linguagem viva de fato, como o demonstram os diálogos dascomédias de então, que reproduzem o falar tradicional da gentedo povo. Trariam estes diálogos os característicos gramaticais58do português antigo, se fosse este ainda o idioma corrente.

M. Said Ali. Prólogo da Lexeologia do português histórico, 1.ª ed. 1921. In: Gramática histórica da língua portuguesa. 8.ª ed. rev. e atual. por Mário Eduardo Viaro. São Paulo: Companhia Melhoramentos; Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 2001, p. 17-8 (com adaptações).

Cada um dos itens subsequentes apresenta uma proposta de reescrita de trecho do texto de M. Said Ali, que deve ser julgada certa se estiver devidamente pontuada e gramaticalmente correta e mantiver as informações do texto, ou errada, em caso contrário.

  1. 41.

    “Decorrem muitos anos, até que por fim a linguagem literária, não vendo razão para enjeitar o que todo o mundo diz, se decide a aceitar a mudança também.” (l. 27 a 30): Passa-se muito tempo, até que a linguagem literária, finalmente, por não encontrar motivo para repelir aquilo que todas as pessoas falam, resolve anuir à alteração também.

  2. 42.

    “Mas os escritores antigos evitavam afastar-se da prática recebida de seus avós e, posto que muitas concessões tivessem de fazer ao uso para serem entendidos, propendiam mais a utilizar-se de recursos artificiais que dessem ao estilo certo ar de gravidade e acima do vulgar.” (l. 43 a 47): Porém os escritores antigos furtavam-se a distanciar-se do uso adquirido de seus avós e, uma vez que diversas transigências se tivesse de fazer à prática a fim de serem compreendidos, inclinavam-se mais a empregar meios factícios que imprimissem ao seu modo de escrever alguma mostra de sobriedade e superior ao popular.

  3. 43.

    “Surge a inovação, formulada acaso por um ou poucos indivíduos; se tem a dita de agradar, não tarda a generalizar-se o seu uso no falar do povo.” (l. 22 a 24): A novidade aparece, criada, talvez, por uma ou algumas pessoas; se elas tem a sorte de satisfazer o povo, não demora a propagar-se a utilização na fala.

  4. 44.

    “Neste ponto, nunca será a linguagem escrita, dada a sua tendência conservadora, espelho fiel do que se passa na linguagem falada.” (l. 19 a 22): A linguagem escrita nesse aspecto jamais será cópia exata àquilo que ocorre na linguagem oral, por sua propensão tradicionalista.

1 No modesto apartamento em que mora na rua Condede Bonfim, Graciliano Ramos mostrou-me alguns originais dosseus trabalhos. Via de regra, escreve em papel sem pautas, de4um só golpe, ao calor da composição. A forma definitiva vemdepois. Emenda muito. E até mesmo quando passa a limpo,com sua letra explicativa de escrevente de cartório, corta muita7coisa, tudo o que depois vai achando ruim. Às vezes riscalinhas inteiras. As palavras morrem sob o traço forte de tinta deuma igualdade assombrosa, como feito à régua.10 Graciliano guarda os originais dos livros jápublicados. Assim pude verificar um curioso detalhe da feiturade Vidas Secas. Os capítulos, datados, indicaram-me a13ausência de seguimento na elaboração da narrativa. “Baleia”,o nono capítulo, foi o primeiro a ser escrito, em 4 de maio de1937. Um mês e pouco depois, precisamente no dia 18 de16junho, escreveu o quarto capítulo, “Sinha Vitória”. E assimtodo o livro, que não obedeceu a nenhum plano antecipado. — Escrevi a história de um cachorro de meu avô —19conta o romancista, cigarro Selma com ponta de cortiça entreos dedos queimados de fumo. — Os episódios foram-seamontoando. O livro foi crescendo. E assim arrumei Vidas22Secas, que pensei em chamar “O mundo coberto de penas”,título de um dos capítulos do livro. A vida de Graciliano Ramos está sempre presente na25sua obra, no que ela tem de mais humano e doloroso. — Caetés é uma história de Palmeira dos Índios. SãoBernardo se passa em Viçosa. Angústia tem um pouco do28Rio, um pouco de Maceió e muito de mim mesmo. VidasSecas são cenas da vida de Buíque [Pernambuco]. Todos esses romances exigiram do autor um longo e31penoso trabalho de composição. — Não sou como José Américo — disse —, queprimeiro escreve na cabeça e depois transporta o livro para o34papel. A obra de criação, para mim, é quase sempre imprevista.E espontânea. Refaço tudo, depois. Escrever dá muito trabalho.A gente muitas vezes não sabe o que vai fazer. Sai tudo diverso37do que se imaginou.

Francisco de Assis Barbosa. Graciliano Ramos, aos cinquenta anos. Reportagem biográfica. In: jornal Diretrizes, Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional RJ, 1942. Apud: Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla (Orgs.). Conversas – Graciliano Ramos. 3.ª ed. R i o d e J a n e i r o : R e c o r d , 2 0 1 4 , p . 1 1 9 - 2 0 .

Julgue (C ou E) os próximos itens, a propósito das ideias e de aspectos morfossintáticos do texto de Francisco de Assis Barbosa.

  1. 45.

    A supressão da vírgula empregada logo após “livro” (l.17) atenderia às normas gramaticais, porém violaria a coerência do texto.

  2. 46.

    Depreende-se do texto que poucas vezes Graciliano Ramos escreveu de chofre, mas quando o fez, reescreveu tudo depois, ao passar a limpo, e é por isso que, para ele, escrever era muito trabalhoso.

  3. 47.

    As informações e a correção gramatical do texto seriam preservadas, caso a conjunção aditiva “E” (l. 5 e 16) fosse grafada em minúscula; o ponto final que a antecede fosse substituído por vírgula; e, apenas na ocorrência da linha 5, essa conjunção fosse seguida de vírgula.

  4. 48.

    O trecho “A vida de Graciliano Ramos está sempre presente na sua obra, no que ela tem de mais humano e doloroso.” (l. 24 e 25) poderia ser reescrito, sem prejuízo das informações originais do texto e de sua correção gramatical, da seguinte forma: Está sempre presente na obra de Graciliano Ramos aquilo que, na sua vida, é mais humano e doloroso.

1 Distingo, no português histórico, dois períodosprincipais: o português antigo, que se escreveu até os primeirosanos do século XVI, e o português moderno. Robustecida e4enriquecida de expressões novas, a linguagem usada nascrônicas desse segundo período, que relatam osdescobrimentos em África e Ásia e os feitos das armas7lusitanas no Oriente, culmina no apuro e no gosto do portuguêsmoderno d’Os Lusíadas (1572). É o século da Renascençaliterária, e tudo quanto ao depois se escreve é a continuação da10linguagem desse período. E como não ficou estacionário oportuguês moderno, denominou-se quinhentista, seiscentista,setecentista a linguagem própria a cada era. Reservo a13denominação de português hodierno para as mudançascaracterísticas do falar atual criadas ou fixadas recentemente,ou recebidas do século XIX, ou que por ventura remontam ao16século XVIII. Limites entre os diversos períodos não podem sertraçados com rigor. Ignoram-se a data ou o momento exato do19aparecimento de qualquer alteração linguística. Neste ponto,nunca será a linguagem escrita, dada a sua tendênciaconservadora, espelho fiel do que se passa na linguagem22falada. Surge a inovação, formulada acaso por um ou poucosindivíduos; se tem a dita de agradar, não tarda a generalizar-seo seu uso no falar do povo. A gente culta e de fina casta25repele-a, a princípio, mas, com o tempo, sucumbe ao contágio.Imita o vulgo, se não escrevendo com meditação, em todo ocaso no trato familiar e falando espontaneamente. Decorrem28muitos anos, até que por fim a linguagem literária, não vendorazão para enjeitar o que todo o mundo diz, se decide a aceitara mudança também. Tal é, a meu ver, a explicação não31somente de fatos isolados, mas ainda do aparecimento de todoo português moderno. Não é de crer que poucos anos depois de 1500, quase34que bruscamente e sem influxo de idioma estranho, cessassemem Portugal inveterados hábitos de falar e se trocasse oportuguês antigo em português moderno. Nem podemos37atribuir a escritores, por muito engenho artístico que tivessem,aptidões e autoridade para reformarem, a seu sabor, o idiomapátrio e sua gramática. Consistiria a sua obra antes em elevar40à categoria de linguagem literária o falar comum,principalmente o das pessoas educadas, tornando-o maiselegante e desterrando locuções que lhe dessem aspecto menos43nobre. Mas os escritores antigos evitavam afastar-se da práticarecebida de seus avós e, posto que muitas concessões tivessemde fazer ao uso para serem entendidos, propendiam mais a46utilizar-se de recursos artificiais que dessem ao estilo certo arde gravidade e acima do vulgar. O século XVI, descerradas as cortinas que encobriam49o espetáculo de novos mundos, e dada a facilidade de pôr aleitura das obras literárias ao alcance de todos, graças aodesenvolvimento da imprensa, devia fazer cessar a superstição52do passado, mostrar o caminho do futuro e ditar a necessidadede se exprimirem os escritores em linguagem que todosentendessem. Resolveram-se a fazê-lo. Serviram-se da55linguagem viva de fato, como o demonstram os diálogos dascomédias de então, que reproduzem o falar tradicional da gentedo povo. Trariam estes diálogos os característicos gramaticais58do português antigo, se fosse este ainda o idioma corrente.

M. Said Ali. Prólogo da Lexeologia do português histórico, 1.ª ed. 1921. In: Gramática histórica da língua portuguesa. 8.ª ed. rev. e atual. por Mário Eduardo Viaro. São Paulo: Companhia Melhoramentos; Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 2001, p. 17-8 (com adaptações).

Acerca das ideias do texto de M. Said Ali, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 49.

    Infere-se do desenvolvimento das ideias no segundo parágrafo do texto que pessoas instruídas inicialmente rejeitam uma inovação na língua; entretanto, passado algum tempo, incorporam-na à escrita, de forma refletida, assim como à linguagem empregada nos relacionamentos íntimos e no cotidiano.

  2. 50.

    Depreende-se do texto que, nas crônicas escritas em português moderno, a linguagem, fortalecida e renovada, atingiu seu mais alto grau de aperfeiçoamento e estilo.

  3. 51.

    As noções de tempo “hodierno” (l.13), “atual” (l.14) e “recentemente” (l.14) têm como referência o século XX.

  4. 52.

    Segundo o autor, os escritores portugueses, tendo adotado, após 1500, o falar comum da gente instruída em suas obras literárias, refinando-o, atingiram seu intento de transformar a língua oral e reformar o português antigo.

1Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.Sou formado em desencontros.A sensatez me absurda.4Os delírios verbais me terapeutam.Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso7porque não encontrava um título para os seus poemas.Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até queapareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese o10acalmou.)As antíteses congraçam.

Manoel de Barros. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 49.

Julgue (C ou E) os itens seguintes, relativos ao poema de Manoel de Barros.

  1. 53.

    O uso da função fática da linguagem na oração “palavra aceita tudo” (v.5) ressalta o didatismo que permeia o poema.

  2. 54.

    O último verso do poema — “As antíteses congraçam” — resume o que a própria composição dos demais versos demonstra.

  3. 55.

    As palavras “inconexo” (v.1) e “absurda” (v.3) foram formadas pelo mesmo processo de derivação, que resulta em mudança de categoria gramatical de um vocábulo, sem que haja alteração morfológica.

  4. 56.

    No trecho “E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso” (v.6), a omissão da vírgula necessária para isolar a oração adjetiva explicativa introduzida pelo pronome “que” é desvio da norma gramatical circunscrito à denominada licença poética.

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