Língua Portuguesa — CACD 2010

CESPE/UnB · CACD – 1ª fase (TPS) · 64 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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Texto II

1 A poesia ao meu alcance só podia ser a humilde notaindividual; mas, como eu disse, não encontrei em mim a teclado verso, cuja ressonância interior não se confunde com a de4nenhum timbre artificial. Quando mesmo, porém, eu tivesserecebido o dom do verso, teria naufragado, porque não nasciartista. Acredito ter recebido como escritor, tudo é relativo,7um pouco de sentimento, um pouco de pensamento, um poucode poesia, o que tudo junto pode dar, em quem não teve overso, uma certa medida de prosa rítmica; mas da arte não10recebi senão a aspiração por ela, a sensação do órgãoincompleto e não formado, o pesar de que a natureza meesquecesse no seu coro, o vácuo da inspiração que me falta...13Ustedes me entienden. “O artista — disse Novalis — devequerer e poder representar tudo”. Dessa faculdade derepresentar, de criar a menor representação das coisas16— quanto mais uma realidade mais alta do que a realidade,como queria Goethe — fui inteiramente privado. Nem todosos que têm o dom do verso são por natureza artistas, e nem19todos os artistas têm o dom do verso; a prosa os possui comoa poesia; a mim, porém, não coube em partilha nem o versonem a arte.22 É singular como, entre nós, se distribui o título deartista. Muitas vezes, tenho lido e ouvido falar de Rui Barbosacomo de um artista, pelo modo por que escreve a prosa. No25mesmo sentido, poder-se-ia chamar a Krupp artista: afundição é, de alguma forma, uma arte, uma arte ciclópica, ede Rui Barbosa não é exagerado dizer, pelos blocos de ideias28uns sobre os outros e pelos raios que funde, que éverdadeiramente um ciclope intelectual. Mas o artista?Existirá nele a camada da arte? Se existe, e é bem natural,31ainda jaz desconhecida dele mesmo por baixo dassuperposições da erudição e das leituras. Eu mesmo jáinsinuei uma vez: ninguém sabe o diamante que ele nos34revelaria, se tivesse a coragem de cortar, sem piedade, amontanha de luz, cuja grandeza tem ofuscado a República, ede reduzi-la a uma pedra.

Joaquim Nabuco. Minha formação. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981, p. 64-65.

Com relação ao texto II, julgue C ou E.

  1. 1.

    No último parágrafo do texto, a comparação entre a obra de Rui Barbosa e o produto da indústria metalúrgica serve ao propósito de questionar a atribuição a esse intelectual do título de artista.

  2. 2.

    De acordo com o texto, Novalis confia na capacidade do artista de representar a realidade, ao contrário de Goethe, que não acredita que a realidade possa ser alcançada pela arte.

  3. 3.

    Depreende-se do texto que o dom da arte pode permanecer latente e ser ignorado pelo indivíduo dele dotado, durante toda a existência.

  4. 4.

    Segundo o escritor, a arte e o dom do verso são aptidões inatas, como evidencia o emprego, entre outros, do verbo receber, nas linhas 5, 6 e 10, e da expressão “órgão incompleto e não formado” (l.10-11).

Texto I

1 É uma tecla muito batida pelos que procuram estudaro caráter dos brasileiros o gosto que estes revelam pelaimprovisação em todos os ramos de atividade. A cada passo,4se verifica o pendor deles para as tarefas improvisadas, deque, não raro, se saem com brilho e galhardia. Isso de sepreparar longa e pacientemente para resolver os problemas7próprios a uma especialidade não vai muito com eles.Improvisam-se os nossos sociólogos, improvisam-se os nossosestadistas, improvisam-se os nossos linguistas.10 Os nossos grandes poetas podem se contar pelosdedos, e nenhum tivemos até hoje capaz de uma destas obrasde fôlego, como a Divina Comédia, o Fausto ou Os13Lusíadas, onde, escolhido o tema capital, o seu autor põe, aolado das ideias-mestras da cultura do seu tempo, toda a suainteligência e toda a sua sensibilidade. Agora, abancai ao16zinco de um bar em dias de carnaval e, aparecendo um violão,vereis com que facilidade o malandro mais desprovido deletras inventa um despotismo de quadrinhas de desafio ou de19embolada. Isso na cidade. No sertão, então, nem se fala. Paraos matutos do Nordeste, “poeta” só é o sujeito capaz deimprovisar na boca da viola. Não sei quem foi o literato que,22de uma feita, recitou para uns cantadores do sertão algumaspoesias de Bilac. Os homens ouviram calados, mas depoisindagaram se Bilac era “poeta” mesmo.25— Como poeta mesmo?— Nós queremo sabê se ele é capaz mêmo de improvisá naviola...

Manuel Bandeira. O dedo de Deus, o dedo do alemão e o dedo do brasileiro. In: Crônicas inéditas II, 1930-1944. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p.16.

Julgue o item a seguir, acerca de aspectos semânticos e morfossintáticos do texto I.

  1. 5.

    O vocábulo “se” tem a mesma classificação gramatical nas seguintes ocorrências: “se verifica” (l.4) e “se saem” (l.5).

  2. 6.

    A expressão “uma tecla muito batida” (l.1), de uso informal, foi empregada com sentido conotativo e significa expressão desgastada pelo uso.

  3. 7.

    No período “No sertão, então, nem se fala” (l.19), verifica-se a antecipação do adjunto adverbial de lugar do verbo falar, o que justifica o emprego da vírgula imediatamente após a palavra “sertão”.

  4. 8.

    No segmento “o gosto que estes revelam pela improvisação” (l.2-3), o termo “pela improvisação” exerce função distinta da exercida na seguinte frase: Revelou, pela improvisação, o quanto se afastara da cultura clássica.

  5. 9.

    No trecho “mas depois indagaram se Bilac era ‘poeta’ mesmo” (l.23-24), em que se verifica emprego de discurso indireto, a oração iniciada pelo conectivo condicional “se” expressa uma hipótese acerca do que foi mencionado anteriormente.

Texto I

1 É uma tecla muito batida pelos que procuram estudaro caráter dos brasileiros o gosto que estes revelam pelaimprovisação em todos os ramos de atividade. A cada passo,4se verifica o pendor deles para as tarefas improvisadas, deque, não raro, se saem com brilho e galhardia. Isso de sepreparar longa e pacientemente para resolver os problemas7próprios a uma especialidade não vai muito com eles.Improvisam-se os nossos sociólogos, improvisam-se os nossosestadistas, improvisam-se os nossos linguistas.10 Os nossos grandes poetas podem se contar pelosdedos, e nenhum tivemos até hoje capaz de uma destas obrasde fôlego, como a Divina Comédia, o Fausto ou Os13Lusíadas, onde, escolhido o tema capital, o seu autor põe, aolado das ideias-mestras da cultura do seu tempo, toda a suainteligência e toda a sua sensibilidade. Agora, abancai ao16zinco de um bar em dias de carnaval e, aparecendo um violão,vereis com que facilidade o malandro mais desprovido deletras inventa um despotismo de quadrinhas de desafio ou de19embolada. Isso na cidade. No sertão, então, nem se fala. Paraos matutos do Nordeste, “poeta” só é o sujeito capaz deimprovisar na boca da viola. Não sei quem foi o literato que,22de uma feita, recitou para uns cantadores do sertão algumaspoesias de Bilac. Os homens ouviram calados, mas depoisindagaram se Bilac era “poeta” mesmo.25— Como poeta mesmo?— Nós queremo sabê se ele é capaz mêmo de improvisá naviola...

Manuel Bandeira. O dedo de Deus, o dedo do alemão e o dedo do brasileiro. In: Crônicas inéditas II, 1930-1944. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p.16.

Com relação ao texto I, julgue C ou E.

  1. 10.

    No texto, os traços da cultura brasileira destacados servem de contraponto à apologia do pendor literário dos estrangeiros, sustentada nas premissas de que estes são mais sensíveis que os autores brasileiros e de que empenham plenamente sua inteligência na produção de suas obras.

  2. 11.

    O autor do texto não se exime de emitir julgamento de valor em relação a obras literárias e a escritores, o que se conforma com o gênero do texto: a crônica.

  3. 12.

    O emprego de verbos flexionados na segunda pessoa do plural, evidência do apego do autor ao rigor do uso formal da língua escrita, destoa da impessoalidade e da objetividade que caracterizam o texto.

  4. 13.

    Nesse texto, o autor considera a improvisação um traço característico da produção literária brasileira, que a distingue da literatura de outros países, bem como de outras artes e de outros ofícios nacionais.

Texto III

Pernambucano em Málaga1A cana doce de Málagadá domada, em cão ou gata:deixam-na perto, sem medo,4quase vai dentro das casas.É cana que nunca morde,nem quando vê-se atacada:7não leva pulgas no pelonem, entre folhas, navalha.A cana doce de Málaga10dá escorrida e cabisbaixa:naquele porte enfezadode crianças abandonadas.13As folhas dela já nascemmurchas de cor, como a palha:ou a farda murcha dos órfãos,16desde novas, desbotadas.A cana doce de Málaganão é mar, embora em praias,19dá sempre em pequenas poças,restos de uma onda recuada.Em poças, não tem do mar22a pulsação dele, nata:sim, o torpor surdo e lassoque se vê na água estagnada.25A cana doce de Málagadá dócil, disciplinada:dá em fundos de quintal28e podia dar em jarras.Falta-lhe é a força da nossa,criada solta em ruas, praças:31solta, à vontade do corpo,nas praças das grandes várzeas.

João Cabral de Melo Neto. A educação pela pedra e outros poemas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 149-50.

Com relação ao poema apresentado, julgue C ou E.

  1. 14.

    No segundo verso do poema, a expressão “em cão ou gata” equivale semanticamente a como cão ou gata.

  2. 15.

    A forma “dá” é empregada no poema ora como verbo intransitivo, nos versos 19 e 27, por exemplo, ora como transitivo, nos versos 2 e 26.

  3. 16.

    Na última estrofe, a forma verbal “é” foi empregada como palavra de realce.

  4. 17.

    O verso “naquele porte enfezado” (v.11) acrescenta circunstância de lugar ao fato expresso na terceira estrofe.

Texto IV

1 Que a obra de boa qualidade sempre se destaca é umaafirmação sem valor, se aplicada a uma obra de qualidaderealmente boa e se por “destaca” quer-se fazer referência à4aceitação na sua própria época. Que a obra de boa qualidadesempre se destaca, no curso de sua futuridade, é verdadeiro;que a obra de boa qualidade mas de segunda ordem sempre se7destaca, na sua própria época, é também verdadeiro. Pois como há de um crítico julgar? Quais as qualidadesque formam não o incidental, mas o crítico competente? Um10conhecimento da arte e da literatura do passado, um gostorefinado por esse conhecimento, e um espírito judicioso eimparcial. Qualquer coisa menos do que isto é fatal ao13verdadeiro jogo das faculdades críticas. (...) Quão competente é, porém, o crítico competente?Suponhamos que uma obra de arte profundamente original16surja diante de seus olhos. Como a julga ele? Comparando-acom as obras de arte do passado. Se for original, afastar-se-áem alguma coisa — e, quanto mais original, mais se afastará19— das obras de arte do passado. Na medida em que o fizer,parecerá não se conformar com o cânone estético que o críticoencontra firmado em seu pensamento. (...)22 De todos os lados, ouvimos o clamor de que o nossotempo necessita de um grande poeta. O vazio central de todasas modernas realizações é uma coisa mais para se sentir do25que para ser falada. Se o grande poeta tivesse de aparecer,quem estaria presente para descobri-lo? Quem pode dizer seele já não apareceu? O público ledor vê, nos jornais, notícias28das obras daqueles homens cuja influência e camaradagenstornaram-nos conhecidos, ou cuja secundariedade fez quefossem aceitos pela multidão.

Fernando Pessoa. Fernando Pessoa – obras em prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p. 284-85.

Acerca do texto IV e das ideias nele desenvolvidas, julgue C ou E.

  1. 18.

    O adjetivo “judicioso” (l.11), que significa o mesmo que opinioso, é empregado com sentido irônico no texto.

  2. 19.

    O autor mostra-se cético não apenas quanto à capacidade da crítica de reconhecer o “grande poeta” (l.23) de seu tempo, mas também quanto à modernidade.

  3. 20.

    Segundo o autor do texto, as obras de arte do passado não servem de parâmetro para a crítica, porque elas atenderam a cânones estéticos da época em que foram produzidas.

  4. 21.

    O autor enumera algumas qualidades necessárias ao exercício competente da crítica de arte e literatura, mas não suficientes para o julgamento de “uma obra de arte profundamente original” (l.15).

Com relação ao texto II, julgue o item a seguir.

  1. 22.

    No trecho “mas da arte não recebi senão a aspiração por ela, a sensação do órgão incompleto e não formado” (l.9-11), do texto II, foi empregada apenas linguagem denotativa.

  2. 23.

    No trecho “não encontrei em mim a tecla do verso, cuja ressonância interior não se confunde com a de nenhum timbre artificial” (l.2-4), do texto II, foi empregada apenas linguagem denotativa.

  3. 24.

    No trecho “Nem todos os que têm o dom do verso são por natureza artistas, e nem todos os artistas têm o dom do verso” (l.17-19), do texto II, foi empregada apenas linguagem denotativa.

  4. 25.

    No trecho “ninguém sabe o diamante que ele nos revelaria, se tivesse a coragem de cortar, sem piedade, a montanha de luz” (l.33-35), do texto II, foi empregada apenas linguagem denotativa.

  5. 26.

    No trecho “Quando mesmo, porém, eu tivesse recebido o dom do verso, teria naufragado, porque não nasci artista” (l.4-6), do texto II, foi empregada apenas linguagem denotativa.

Texto III

Pernambucano em Málaga1A cana doce de Málagadá domada, em cão ou gata:deixam-na perto, sem medo,4quase vai dentro das casas.É cana que nunca morde,nem quando vê-se atacada:7não leva pulgas no pelonem, entre folhas, navalha.A cana doce de Málaga10dá escorrida e cabisbaixa:naquele porte enfezadode crianças abandonadas.13As folhas dela já nascemmurchas de cor, como a palha:ou a farda murcha dos órfãos,16desde novas, desbotadas.A cana doce de Málaganão é mar, embora em praias,19dá sempre em pequenas poças,restos de uma onda recuada.Em poças, não tem do mar22a pulsação dele, nata:sim, o torpor surdo e lassoque se vê na água estagnada.25A cana doce de Málagadá dócil, disciplinada:dá em fundos de quintal28e podia dar em jarras.Falta-lhe é a força da nossa,criada solta em ruas, praças:31solta, à vontade do corpo,nas praças das grandes várzeas.

João Cabral de Melo Neto. A educação pela pedra e outros poemas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 149-50.

Com relação ao poema, julgue C ou E.

  1. 27.

    O ufanismo expresso na última estrofe é marca do estilo de época a que pertence o poema.

  2. 28.

    O contraste entre a “cana de Málaga” e a “nossa” cana, explícito na última estrofe, é prenunciado pelo título do poema e pelas construções negativas usadas na caracterização da cana de Málaga.

  3. 29.

    O poeta contrasta características do espaço geográfico da Espanha e do Brasil, para demonstrar que, neste país, as condições são mais favoráveis que naquele para o cultivo da cana-de-açúcar.

  4. 30.

    A polissemia da palavra “doce” presta-se à construção do sentido global do poema, pois permite caracterizar tanto o sabor da cana como sua docilidade, sua brandura.

Texto II

1 A poesia ao meu alcance só podia ser a humilde notaindividual; mas, como eu disse, não encontrei em mim a teclado verso, cuja ressonância interior não se confunde com a de4nenhum timbre artificial. Quando mesmo, porém, eu tivesserecebido o dom do verso, teria naufragado, porque não nasciartista. Acredito ter recebido como escritor, tudo é relativo,7um pouco de sentimento, um pouco de pensamento, um poucode poesia, o que tudo junto pode dar, em quem não teve overso, uma certa medida de prosa rítmica; mas da arte não10recebi senão a aspiração por ela, a sensação do órgãoincompleto e não formado, o pesar de que a natureza meesquecesse no seu coro, o vácuo da inspiração que me falta...13Ustedes me entienden. “O artista — disse Novalis — devequerer e poder representar tudo”. Dessa faculdade derepresentar, de criar a menor representação das coisas16— quanto mais uma realidade mais alta do que a realidade,como queria Goethe — fui inteiramente privado. Nem todosos que têm o dom do verso são por natureza artistas, e nem19todos os artistas têm o dom do verso; a prosa os possui comoa poesia; a mim, porém, não coube em partilha nem o versonem a arte.22 É singular como, entre nós, se distribui o título deartista. Muitas vezes, tenho lido e ouvido falar de Rui Barbosacomo de um artista, pelo modo por que escreve a prosa. No25mesmo sentido, poder-se-ia chamar a Krupp artista: afundição é, de alguma forma, uma arte, uma arte ciclópica, ede Rui Barbosa não é exagerado dizer, pelos blocos de ideias28uns sobre os outros e pelos raios que funde, que éverdadeiramente um ciclope intelectual. Mas o artista?Existirá nele a camada da arte? Se existe, e é bem natural,31ainda jaz desconhecida dele mesmo por baixo dassuperposições da erudição e das leituras. Eu mesmo jáinsinuei uma vez: ninguém sabe o diamante que ele nos34revelaria, se tivesse a coragem de cortar, sem piedade, amontanha de luz, cuja grandeza tem ofuscado a República, ede reduzi-la a uma pedra.

Joaquim Nabuco. Minha formação. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981, p. 64-65.

Acerca do vocabulário e das estruturas linguísticas empregados no texto II, julgue C ou E.

  1. 31.

    O período iniciado na linha 14 está na ordem indireta, como demonstra, por exemplo, a antecipação da oração “de criar a menor representação das coisas” (l.15), a qual exerce a função de complemento do nome “privado” (l.17).

  2. 32.

    Dado que a conjunção “Quando” (l.4) não expressa tempo, a oração que ela inicia poderia ser reescrita corretamente da seguinte forma: Mesmo que eu tivesse recebido o dom do verso.

  3. 33.

    Como o fato expresso pela forma verbal “coube” (l.20) pode ser atribuído aos dois núcleos do sujeito, relacionados por adição, a substituição dela por couberam seria gramaticalmente correta.

  4. 34.

    A forma verbal resultar poderia ter sido corretamente empregada no lugar da forma “dar” (l.8), visto que, além de serem sinônimas, têm a mesma regência.

Texto IV

1 Que a obra de boa qualidade sempre se destaca é umaafirmação sem valor, se aplicada a uma obra de qualidaderealmente boa e se por “destaca” quer-se fazer referência à4aceitação na sua própria época. Que a obra de boa qualidadesempre se destaca, no curso de sua futuridade, é verdadeiro;que a obra de boa qualidade mas de segunda ordem sempre se7destaca, na sua própria época, é também verdadeiro. Pois como há de um crítico julgar? Quais as qualidadesque formam não o incidental, mas o crítico competente? Um10conhecimento da arte e da literatura do passado, um gostorefinado por esse conhecimento, e um espírito judicioso eimparcial. Qualquer coisa menos do que isto é fatal ao13verdadeiro jogo das faculdades críticas. (...) Quão competente é, porém, o crítico competente?Suponhamos que uma obra de arte profundamente original16surja diante de seus olhos. Como a julga ele? Comparando-acom as obras de arte do passado. Se for original, afastar-se-áem alguma coisa — e, quanto mais original, mais se afastará19— das obras de arte do passado. Na medida em que o fizer,parecerá não se conformar com o cânone estético que o críticoencontra firmado em seu pensamento. (...)22 De todos os lados, ouvimos o clamor de que o nossotempo necessita de um grande poeta. O vazio central de todasas modernas realizações é uma coisa mais para se sentir do25que para ser falada. Se o grande poeta tivesse de aparecer,quem estaria presente para descobri-lo? Quem pode dizer seele já não apareceu? O público ledor vê, nos jornais, notícias28das obras daqueles homens cuja influência e camaradagenstornaram-nos conhecidos, ou cuja secundariedade fez quefossem aceitos pela multidão.

Fernando Pessoa. Fernando Pessoa – obras em prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p. 284-85.

Com relação a vocabulário e aspectos gramaticais do texto IV, julgue C ou E.

  1. 35.

    Pelo desenvolvimento das ideias do texto, verifica-se que a referência do sujeito elíptico de todas as orações do período iniciado por “Se for original” (l.17) corresponde à expressão “o crítico competente” (l.14).

  2. 36.

    O emprego do pronome “nos”, no segmento “tornaram-nos conhecidos” (l.29), evidencia que o autor do texto se inclui entre os homens “aceitos pela multidão” (l.30).

  3. 37.

    Seria mantida a correção gramatical do texto, caso fosse suprimido o acento indicativo de crase empregado em “à aceitação na sua própria época” (l.3-4).

  4. 38.

    Na frase “Quais as qualidades que formam não o incidental, mas o crítico competente?” (l.8-9), o emprego da palavra de realce “que” e a oposição estabelecida por “não..., mas” são recursos de ênfase.

Textos V e VI

Texto V

1 As turmas povoadoras que para lá [Acre] seguiamdeparavam com um estado social que ainda mais lhesengravecia a instabilidade e a fraqueza. Aguardava-as, e ainda4as aguarda, a mais imperfeita organização do trabalho queainda engenhou o egoísmo humano. Repitamos: o sertanejo emigrante realiza, ali, uma7anomalia sobre a qual nunca é demasiado insistir: é o homemque trabalha para escravizar-se. Ele efetua, à sua custa e detodo em todo desamparado, uma viagem difícil, em que os10adiantamentos feitos pelos contratadores insaciáveis, inçadosde parcelas fantásticas e de preços inauditos, o transformamas mais das vezes em devedor para sempre insolvente.13 A sua atividade, desde o primeiro golpe demachadinha, constringe-se para logo num círculo viciosoinaturável: o debater-se exaustivo para saldar uma dívida que16se avoluma, ameaçadoramente, acompanhando-lhe osesforços e as fadigas para saldá-la. E vê-se completamente só na faina dolorosa. A19exploração da seringa, neste ponto pior que a do caucho,impõe o isolamento. Há um laivo siberiano naquele trabalho.Dostoiévski sombrearia as suas páginas mais lúgubres com22esta tortura: a do homem constrangido a calcar durante a vidainteira a mesma “estrada”, de que ele é o único transeunte,trilha obscurecida, estreitíssima e circulante, ao mesmo ponto25de partida. Nesta empresa de Sísifo a rolar em vez de umbloco o seu próprio corpo — partindo, chegando e partindo— nas voltas constritoras de um círculo demoníaco, no seu28eterno giro de encarcerado numa prisão sem muros, agravadapor um ofício rudimentar que ele aprende em uma hora paraexercê-lo toda a vida, automaticamente, por simples31movimentos reflexos — se não o enrija uma sólida estruturamoral, vão-se-lhe, com a inteligência atrofiada, todas asesperanças, e as ilusões ingênuas, e a tonificante alacridade34que o arrebataram àquele lance, à ventura, em busca dafortuna.

Euclides da Cunha, 1866-1909. Um clima caluniado (fragmento). In: Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. Seleção e coordenação de Hildon Rocha. Petrópolis: Vozes, Brasília, INL (coleção Dimensões do Brasil, v.1), 1976, p. 131-2 (com adaptações).

Texto VI

1 Sobretudo naturalista e positivista, Euclides foirejeitado pelo Modernismo. A retórica do excesso, o registrograndíloquo, o tom altíssono só poderiam ser avessos ao4espírito modernista. Acrescente-se a isso sua preocupaçãocom o uso de uma língua portuguesa castiça e até arcaizante,ao tempo em que Mário de Andrade ameaçava todo mundo7com seu projeto de escrever uma Gramatiquinha da falabrasileira. No entanto, mal sabiam os modernistas que, em10Euclides, contavam com um abridor de caminhos. Asnumerosas emendas a que submeteu as sucessivas edições deOs Sertões, enquanto viveu, apontam para um progressivo13abrasileiramento do discurso. No longo processo de emendarseu próprio texto, a prosódia ia, aos poucos, sobrepujando aortoepia, esta, sim, portuguesa, mostrando que o ouvido do16autor ia desautorizando sua sintaxe e, principalmente, suacolocação de pronomes anterior. Ainda mais, o Modernismo daria continuidade a19algumas das preocupações de Euclides com os interiores dopaís e com a repulsa à macaqueação europeia nos focospopulacionais litorâneos. Partilharia igualmente com ele a22reflexão sobre a especificidade das condições históricas dopaís, na medida em que, já em Os Sertões, Euclides realizaraum mapeamento de temas que se tornariam centrais na25produção intelectual e artística do século XX, ao analisar onegro, o índio, os pobres, os sertanejos, a condiçãocolonizada, a religiosidade popular, as insurreições, o28subdesenvolvimento e a dependência. Aí fincaram suas raízesnão só o Modernismo, mas também o romance regionalista de1930 e o nascimento das ciências sociais no país na década de3140 do século passado. Muitas dessas preocupações não eram,evidentemente, exclusivas de Euclides, mas comuns às elitesilustradas nas quais ele se integrava e das quais se destacou ao34escrever Os Sertões.

Walnice Nogueira Galvão. Polifonia e paixão (fragmento). In: Euclidiana: ensaios sobre Euclides da Cunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 28-9 (com adaptações).

Com referência às ideias e às estruturas linguísticas do texto V, julgue o item a seguir.

  1. 39.

    Da argumentação do autor, no período final do texto, conclui-se que, dotados de firme espírito de luta, os sertanejos que trabalham na exploração da seringueira mantêm, durante a execução dessa atividade, a esperança e a motivação que os levaram a empreender a viagem em busca de riqueza.

  2. 40.

    As expressões “de todo em todo” (l.8-9) e “para logo” (l.14) poderiam ser substituídas por ao todo e logo mais, respectivamente, sem prejuízo para o conteúdo semântico do texto.

  3. 41.

    Ao afirmar que “Há um laivo siberiano naquele trabalho” (l.20), o autor compara o isolamento que o trabalho impõe ao sertanejo com o exílio a que foram submetidos intelectuais e políticos que se revoltaram contra o regime soviético em século passado.

  4. 42.

    Ao metaforizar o trabalho no seringal denominando-o “empresa de Sísifo” (l.25), o autor ressalta estar o sertanejo condenado a repetir, perpetuamente e sem alento, um labor penoso e embrutecedor.

  5. 43.

    Depreende-se do texto que os sertanejos, desprotegidos, tornam-se devedores dos seus contratantes logo após terem iniciado o trabalho no seringal.

Textos V e VI

Texto V

1 As turmas povoadoras que para lá [Acre] seguiamdeparavam com um estado social que ainda mais lhesengravecia a instabilidade e a fraqueza. Aguardava-as, e ainda4as aguarda, a mais imperfeita organização do trabalho queainda engenhou o egoísmo humano. Repitamos: o sertanejo emigrante realiza, ali, uma7anomalia sobre a qual nunca é demasiado insistir: é o homemque trabalha para escravizar-se. Ele efetua, à sua custa e detodo em todo desamparado, uma viagem difícil, em que os10adiantamentos feitos pelos contratadores insaciáveis, inçadosde parcelas fantásticas e de preços inauditos, o transformamas mais das vezes em devedor para sempre insolvente.13 A sua atividade, desde o primeiro golpe demachadinha, constringe-se para logo num círculo viciosoinaturável: o debater-se exaustivo para saldar uma dívida que16se avoluma, ameaçadoramente, acompanhando-lhe osesforços e as fadigas para saldá-la. E vê-se completamente só na faina dolorosa. A19exploração da seringa, neste ponto pior que a do caucho,impõe o isolamento. Há um laivo siberiano naquele trabalho.Dostoiévski sombrearia as suas páginas mais lúgubres com22esta tortura: a do homem constrangido a calcar durante a vidainteira a mesma “estrada”, de que ele é o único transeunte,trilha obscurecida, estreitíssima e circulante, ao mesmo ponto25de partida. Nesta empresa de Sísifo a rolar em vez de umbloco o seu próprio corpo — partindo, chegando e partindo— nas voltas constritoras de um círculo demoníaco, no seu28eterno giro de encarcerado numa prisão sem muros, agravadapor um ofício rudimentar que ele aprende em uma hora paraexercê-lo toda a vida, automaticamente, por simples31movimentos reflexos — se não o enrija uma sólida estruturamoral, vão-se-lhe, com a inteligência atrofiada, todas asesperanças, e as ilusões ingênuas, e a tonificante alacridade34que o arrebataram àquele lance, à ventura, em busca dafortuna.

Euclides da Cunha, 1866-1909. Um clima caluniado (fragmento). In: Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. Seleção e coordenação de Hildon Rocha. Petrópolis: Vozes, Brasília, INL (coleção Dimensões do Brasil, v.1), 1976, p. 131-2 (com adaptações).

Texto VI

1 Sobretudo naturalista e positivista, Euclides foirejeitado pelo Modernismo. A retórica do excesso, o registrograndíloquo, o tom altíssono só poderiam ser avessos ao4espírito modernista. Acrescente-se a isso sua preocupaçãocom o uso de uma língua portuguesa castiça e até arcaizante,ao tempo em que Mário de Andrade ameaçava todo mundo7com seu projeto de escrever uma Gramatiquinha da falabrasileira. No entanto, mal sabiam os modernistas que, em10Euclides, contavam com um abridor de caminhos. Asnumerosas emendas a que submeteu as sucessivas edições deOs Sertões, enquanto viveu, apontam para um progressivo13abrasileiramento do discurso. No longo processo de emendarseu próprio texto, a prosódia ia, aos poucos, sobrepujando aortoepia, esta, sim, portuguesa, mostrando que o ouvido do16autor ia desautorizando sua sintaxe e, principalmente, suacolocação de pronomes anterior. Ainda mais, o Modernismo daria continuidade a19algumas das preocupações de Euclides com os interiores dopaís e com a repulsa à macaqueação europeia nos focospopulacionais litorâneos. Partilharia igualmente com ele a22reflexão sobre a especificidade das condições históricas dopaís, na medida em que, já em Os Sertões, Euclides realizaraum mapeamento de temas que se tornariam centrais na25produção intelectual e artística do século XX, ao analisar onegro, o índio, os pobres, os sertanejos, a condiçãocolonizada, a religiosidade popular, as insurreições, o28subdesenvolvimento e a dependência. Aí fincaram suas raízesnão só o Modernismo, mas também o romance regionalista de1930 e o nascimento das ciências sociais no país na década de3140 do século passado. Muitas dessas preocupações não eram,evidentemente, exclusivas de Euclides, mas comuns às elitesilustradas nas quais ele se integrava e das quais se destacou ao34escrever Os Sertões.

Walnice Nogueira Galvão. Polifonia e paixão (fragmento). In: Euclidiana: ensaios sobre Euclides da Cunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 28-9 (com adaptações).

Acerca de aspectos morfológicos e semânticos de vocábulos do texto V, julgue C ou E.

  1. 44.

    Denomina-se prefixação o processo de formação dos seguintes vocábulos: “anomalia” (l.7), “alacridade” (l.33) e “arrebataram” (l.34).

  2. 45.

    O vocábulo “agravada” (l.28) tem o mesmo radical que os vocábulos gravidez e gravidade.

  3. 46.

    O vocábulo “inaturável” (l.15) é formado por derivação e tem o mesmo radical do vocábulo desnaturado.

  4. 47.

    Os vocábulos “instabilidade” (l.3), “imperfeita” (l.4), “inçados” (l.10) e “impõe” (l.20) são formados por prefixo cujo valor semântico denota privação ou negação.

Textos V e VI

Texto V

1 As turmas povoadoras que para lá [Acre] seguiamdeparavam com um estado social que ainda mais lhesengravecia a instabilidade e a fraqueza. Aguardava-as, e ainda4as aguarda, a mais imperfeita organização do trabalho queainda engenhou o egoísmo humano. Repitamos: o sertanejo emigrante realiza, ali, uma7anomalia sobre a qual nunca é demasiado insistir: é o homemque trabalha para escravizar-se. Ele efetua, à sua custa e detodo em todo desamparado, uma viagem difícil, em que os10adiantamentos feitos pelos contratadores insaciáveis, inçadosde parcelas fantásticas e de preços inauditos, o transformamas mais das vezes em devedor para sempre insolvente.13 A sua atividade, desde o primeiro golpe demachadinha, constringe-se para logo num círculo viciosoinaturável: o debater-se exaustivo para saldar uma dívida que16se avoluma, ameaçadoramente, acompanhando-lhe osesforços e as fadigas para saldá-la. E vê-se completamente só na faina dolorosa. A19exploração da seringa, neste ponto pior que a do caucho,impõe o isolamento. Há um laivo siberiano naquele trabalho.Dostoiévski sombrearia as suas páginas mais lúgubres com22esta tortura: a do homem constrangido a calcar durante a vidainteira a mesma “estrada”, de que ele é o único transeunte,trilha obscurecida, estreitíssima e circulante, ao mesmo ponto25de partida. Nesta empresa de Sísifo a rolar em vez de umbloco o seu próprio corpo — partindo, chegando e partindo— nas voltas constritoras de um círculo demoníaco, no seu28eterno giro de encarcerado numa prisão sem muros, agravadapor um ofício rudimentar que ele aprende em uma hora paraexercê-lo toda a vida, automaticamente, por simples31movimentos reflexos — se não o enrija uma sólida estruturamoral, vão-se-lhe, com a inteligência atrofiada, todas asesperanças, e as ilusões ingênuas, e a tonificante alacridade34que o arrebataram àquele lance, à ventura, em busca dafortuna.

Euclides da Cunha, 1866-1909. Um clima caluniado (fragmento). In: Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. Seleção e coordenação de Hildon Rocha. Petrópolis: Vozes, Brasília, INL (coleção Dimensões do Brasil, v.1), 1976, p. 131-2 (com adaptações).

Texto VI

1 Sobretudo naturalista e positivista, Euclides foirejeitado pelo Modernismo. A retórica do excesso, o registrograndíloquo, o tom altíssono só poderiam ser avessos ao4espírito modernista. Acrescente-se a isso sua preocupaçãocom o uso de uma língua portuguesa castiça e até arcaizante,ao tempo em que Mário de Andrade ameaçava todo mundo7com seu projeto de escrever uma Gramatiquinha da falabrasileira. No entanto, mal sabiam os modernistas que, em10Euclides, contavam com um abridor de caminhos. Asnumerosas emendas a que submeteu as sucessivas edições deOs Sertões, enquanto viveu, apontam para um progressivo13abrasileiramento do discurso. No longo processo de emendarseu próprio texto, a prosódia ia, aos poucos, sobrepujando aortoepia, esta, sim, portuguesa, mostrando que o ouvido do16autor ia desautorizando sua sintaxe e, principalmente, suacolocação de pronomes anterior. Ainda mais, o Modernismo daria continuidade a19algumas das preocupações de Euclides com os interiores dopaís e com a repulsa à macaqueação europeia nos focospopulacionais litorâneos. Partilharia igualmente com ele a22reflexão sobre a especificidade das condições históricas dopaís, na medida em que, já em Os Sertões, Euclides realizaraum mapeamento de temas que se tornariam centrais na25produção intelectual e artística do século XX, ao analisar onegro, o índio, os pobres, os sertanejos, a condiçãocolonizada, a religiosidade popular, as insurreições, o28subdesenvolvimento e a dependência. Aí fincaram suas raízesnão só o Modernismo, mas também o romance regionalista de1930 e o nascimento das ciências sociais no país na década de3140 do século passado. Muitas dessas preocupações não eram,evidentemente, exclusivas de Euclides, mas comuns às elitesilustradas nas quais ele se integrava e das quais se destacou ao34escrever Os Sertões.

Walnice Nogueira Galvão. Polifonia e paixão (fragmento). In: Euclidiana: ensaios sobre Euclides da Cunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 28-9 (com adaptações).

Com relação aos textos V e VI, julgue C ou E.

  1. 48.

    No texto V, a adjetivação recorrente e o recurso a referências eruditas na descrição do trabalho do sertanejo no seringal são exemplos de características do estilo euclidiano que, no entender da autora do texto VI, são avessas “ao espírito modernista” (l.3-4).

  2. 49.

    No texto V, o emprego de “engravecia” (l.3) e de “vão-se-lhe” (l.32) ilustra a afirmação da autora do texto VI a respeito da preocupação de Euclides da Cunha “com o uso de uma língua portuguesa castiça e até arcaizante” (l.5).

  3. 50.

    No texto V, corrobora-se a análise da autora do texto VI no que concerne às preocupações de Euclides da Cunha acerca das condições do interior do país.

  4. 51.

    Por serem trechos de ensaios, os textos V e VI apresentam-se em linguagem desprovida de informalidade, predominando, no texto V, a função poética da linguagem e, no texto VI, a função conativa.

Textos V e VI

Texto V

1 As turmas povoadoras que para lá [Acre] seguiamdeparavam com um estado social que ainda mais lhesengravecia a instabilidade e a fraqueza. Aguardava-as, e ainda4as aguarda, a mais imperfeita organização do trabalho queainda engenhou o egoísmo humano. Repitamos: o sertanejo emigrante realiza, ali, uma7anomalia sobre a qual nunca é demasiado insistir: é o homemque trabalha para escravizar-se. Ele efetua, à sua custa e detodo em todo desamparado, uma viagem difícil, em que os10adiantamentos feitos pelos contratadores insaciáveis, inçadosde parcelas fantásticas e de preços inauditos, o transformamas mais das vezes em devedor para sempre insolvente.13 A sua atividade, desde o primeiro golpe demachadinha, constringe-se para logo num círculo viciosoinaturável: o debater-se exaustivo para saldar uma dívida que16se avoluma, ameaçadoramente, acompanhando-lhe osesforços e as fadigas para saldá-la. E vê-se completamente só na faina dolorosa. A19exploração da seringa, neste ponto pior que a do caucho,impõe o isolamento. Há um laivo siberiano naquele trabalho.Dostoiévski sombrearia as suas páginas mais lúgubres com22esta tortura: a do homem constrangido a calcar durante a vidainteira a mesma “estrada”, de que ele é o único transeunte,trilha obscurecida, estreitíssima e circulante, ao mesmo ponto25de partida. Nesta empresa de Sísifo a rolar em vez de umbloco o seu próprio corpo — partindo, chegando e partindo— nas voltas constritoras de um círculo demoníaco, no seu28eterno giro de encarcerado numa prisão sem muros, agravadapor um ofício rudimentar que ele aprende em uma hora paraexercê-lo toda a vida, automaticamente, por simples31movimentos reflexos — se não o enrija uma sólida estruturamoral, vão-se-lhe, com a inteligência atrofiada, todas asesperanças, e as ilusões ingênuas, e a tonificante alacridade34que o arrebataram àquele lance, à ventura, em busca dafortuna.

Euclides da Cunha, 1866-1909. Um clima caluniado (fragmento). In: Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. Seleção e coordenação de Hildon Rocha. Petrópolis: Vozes, Brasília, INL (coleção Dimensões do Brasil, v.1), 1976, p. 131-2 (com adaptações).

Texto VI

1 Sobretudo naturalista e positivista, Euclides foirejeitado pelo Modernismo. A retórica do excesso, o registrograndíloquo, o tom altíssono só poderiam ser avessos ao4espírito modernista. Acrescente-se a isso sua preocupaçãocom o uso de uma língua portuguesa castiça e até arcaizante,ao tempo em que Mário de Andrade ameaçava todo mundo7com seu projeto de escrever uma Gramatiquinha da falabrasileira. No entanto, mal sabiam os modernistas que, em10Euclides, contavam com um abridor de caminhos. Asnumerosas emendas a que submeteu as sucessivas edições deOs Sertões, enquanto viveu, apontam para um progressivo13abrasileiramento do discurso. No longo processo de emendarseu próprio texto, a prosódia ia, aos poucos, sobrepujando aortoepia, esta, sim, portuguesa, mostrando que o ouvido do16autor ia desautorizando sua sintaxe e, principalmente, suacolocação de pronomes anterior. Ainda mais, o Modernismo daria continuidade a19algumas das preocupações de Euclides com os interiores dopaís e com a repulsa à macaqueação europeia nos focospopulacionais litorâneos. Partilharia igualmente com ele a22reflexão sobre a especificidade das condições históricas dopaís, na medida em que, já em Os Sertões, Euclides realizaraum mapeamento de temas que se tornariam centrais na25produção intelectual e artística do século XX, ao analisar onegro, o índio, os pobres, os sertanejos, a condiçãocolonizada, a religiosidade popular, as insurreições, o28subdesenvolvimento e a dependência. Aí fincaram suas raízesnão só o Modernismo, mas também o romance regionalista de1930 e o nascimento das ciências sociais no país na década de3140 do século passado. Muitas dessas preocupações não eram,evidentemente, exclusivas de Euclides, mas comuns às elitesilustradas nas quais ele se integrava e das quais se destacou ao34escrever Os Sertões.

Walnice Nogueira Galvão. Polifonia e paixão (fragmento). In: Euclidiana: ensaios sobre Euclides da Cunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 28-9 (com adaptações).

Considerando os sentidos e os aspectos morfossintáticos do texto VI, julgue o item a seguir.

  1. 52.

    Na linha 33, “nas quais” e “das quais” complementam formas verbais distintas.

  2. 53.

    No trecho “Acrescente-se a isso sua preocupação com o uso de uma língua portuguesa castiça e até arcaizante” (l.4-5), o termo sublinhado (“isso”) retoma o que se afirma no trecho imediatamente anterior: “só poderiam ser avessos ao espírito modernista.” (l.3-4).

  3. 54.

    A oração “que se tornariam centrais na produção intelectual e artística do século XX” (l.24-25) tem, no período em que se insere, sentido explicativo.

  4. 55.

    No período “No longo processo de emendar seu próprio texto, a prosódia ia, aos poucos, sobrepujando a ortoepia, esta, sim, portuguesa, mostrando que o ouvido do autor ia desautorizando sua sintaxe e, principalmente, sua colocação de pronomes anterior” (l.13-17), os pronomes sublinhados (as duas ocorrências de “sua”, em “sua sintaxe” e “sua colocação”) fazem referência a “prosódia” (l.14).

  5. 56.

    A substituição da expressão “na medida em que” (l.23) por à medida que não traria prejuízo para o sentido do período em questão.

Textos V e VI

Texto V

1 As turmas povoadoras que para lá [Acre] seguiamdeparavam com um estado social que ainda mais lhesengravecia a instabilidade e a fraqueza. Aguardava-as, e ainda4as aguarda, a mais imperfeita organização do trabalho queainda engenhou o egoísmo humano. Repitamos: o sertanejo emigrante realiza, ali, uma7anomalia sobre a qual nunca é demasiado insistir: é o homemque trabalha para escravizar-se. Ele efetua, à sua custa e detodo em todo desamparado, uma viagem difícil, em que os10adiantamentos feitos pelos contratadores insaciáveis, inçadosde parcelas fantásticas e de preços inauditos, o transformamas mais das vezes em devedor para sempre insolvente.13 A sua atividade, desde o primeiro golpe demachadinha, constringe-se para logo num círculo viciosoinaturável: o debater-se exaustivo para saldar uma dívida que16se avoluma, ameaçadoramente, acompanhando-lhe osesforços e as fadigas para saldá-la. E vê-se completamente só na faina dolorosa. A19exploração da seringa, neste ponto pior que a do caucho,impõe o isolamento. Há um laivo siberiano naquele trabalho.Dostoiévski sombrearia as suas páginas mais lúgubres com22esta tortura: a do homem constrangido a calcar durante a vidainteira a mesma “estrada”, de que ele é o único transeunte,trilha obscurecida, estreitíssima e circulante, ao mesmo ponto25de partida. Nesta empresa de Sísifo a rolar em vez de umbloco o seu próprio corpo — partindo, chegando e partindo— nas voltas constritoras de um círculo demoníaco, no seu28eterno giro de encarcerado numa prisão sem muros, agravadapor um ofício rudimentar que ele aprende em uma hora paraexercê-lo toda a vida, automaticamente, por simples31movimentos reflexos — se não o enrija uma sólida estruturamoral, vão-se-lhe, com a inteligência atrofiada, todas asesperanças, e as ilusões ingênuas, e a tonificante alacridade34que o arrebataram àquele lance, à ventura, em busca dafortuna.

Euclides da Cunha, 1866-1909. Um clima caluniado (fragmento). In: Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. Seleção e coordenação de Hildon Rocha. Petrópolis: Vozes, Brasília, INL (coleção Dimensões do Brasil, v.1), 1976, p. 131-2 (com adaptações).

Texto VI

1 Sobretudo naturalista e positivista, Euclides foirejeitado pelo Modernismo. A retórica do excesso, o registrograndíloquo, o tom altíssono só poderiam ser avessos ao4espírito modernista. Acrescente-se a isso sua preocupaçãocom o uso de uma língua portuguesa castiça e até arcaizante,ao tempo em que Mário de Andrade ameaçava todo mundo7com seu projeto de escrever uma Gramatiquinha da falabrasileira. No entanto, mal sabiam os modernistas que, em10Euclides, contavam com um abridor de caminhos. Asnumerosas emendas a que submeteu as sucessivas edições deOs Sertões, enquanto viveu, apontam para um progressivo13abrasileiramento do discurso. No longo processo de emendarseu próprio texto, a prosódia ia, aos poucos, sobrepujando aortoepia, esta, sim, portuguesa, mostrando que o ouvido do16autor ia desautorizando sua sintaxe e, principalmente, suacolocação de pronomes anterior. Ainda mais, o Modernismo daria continuidade a19algumas das preocupações de Euclides com os interiores dopaís e com a repulsa à macaqueação europeia nos focospopulacionais litorâneos. Partilharia igualmente com ele a22reflexão sobre a especificidade das condições históricas dopaís, na medida em que, já em Os Sertões, Euclides realizaraum mapeamento de temas que se tornariam centrais na25produção intelectual e artística do século XX, ao analisar onegro, o índio, os pobres, os sertanejos, a condiçãocolonizada, a religiosidade popular, as insurreições, o28subdesenvolvimento e a dependência. Aí fincaram suas raízesnão só o Modernismo, mas também o romance regionalista de1930 e o nascimento das ciências sociais no país na década de3140 do século passado. Muitas dessas preocupações não eram,evidentemente, exclusivas de Euclides, mas comuns às elitesilustradas nas quais ele se integrava e das quais se destacou ao34escrever Os Sertões.

Walnice Nogueira Galvão. Polifonia e paixão (fragmento). In: Euclidiana: ensaios sobre Euclides da Cunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 28-9 (com adaptações).

A respeito das ideias, das estruturas linguísticas e da organização do texto VI, julgue C ou E.

  1. 57.

    No primeiro parágrafo do texto, são mencionadas características da obra de Euclides da Cunha que, segundo a autora, teriam ensejado a rejeição desse autor pelos escritores do Modernismo.

  2. 58.

    Na oração “Partilharia igualmente com ele a reflexão sobre a especificidade das condições históricas do país” (l.21-23), a referência do sujeito elíptico é a expressão “o Modernismo” (l.18), e a do pronome “ele” é o termo “Euclides” (l.19).

  3. 59.

    O período “No entanto, mal sabiam os modernistas que, em Euclides, contavam com um abridor de caminhos” (l.9-10) poderia ser reescrito, sem prejuízo para as informações do texto, da seguinte forma: Entretanto, não percebiam os modernistas que, em Euclides, tinham um precursor.

  4. 60.

    A recorrente citação de Os Sertões, a descrição dos processos de reescritura dessa obra pelo autor e a enumeração dos temas nela abordados evidenciam que o objetivo central do texto VI é a reapresentação desse livro aos leitores.

Textos V e VI

Texto V

1 As turmas povoadoras que para lá [Acre] seguiamdeparavam com um estado social que ainda mais lhesengravecia a instabilidade e a fraqueza. Aguardava-as, e ainda4as aguarda, a mais imperfeita organização do trabalho queainda engenhou o egoísmo humano. Repitamos: o sertanejo emigrante realiza, ali, uma7anomalia sobre a qual nunca é demasiado insistir: é o homemque trabalha para escravizar-se. Ele efetua, à sua custa e detodo em todo desamparado, uma viagem difícil, em que os10adiantamentos feitos pelos contratadores insaciáveis, inçadosde parcelas fantásticas e de preços inauditos, o transformamas mais das vezes em devedor para sempre insolvente.13 A sua atividade, desde o primeiro golpe demachadinha, constringe-se para logo num círculo viciosoinaturável: o debater-se exaustivo para saldar uma dívida que16se avoluma, ameaçadoramente, acompanhando-lhe osesforços e as fadigas para saldá-la. E vê-se completamente só na faina dolorosa. A19exploração da seringa, neste ponto pior que a do caucho,impõe o isolamento. Há um laivo siberiano naquele trabalho.Dostoiévski sombrearia as suas páginas mais lúgubres com22esta tortura: a do homem constrangido a calcar durante a vidainteira a mesma “estrada”, de que ele é o único transeunte,trilha obscurecida, estreitíssima e circulante, ao mesmo ponto25de partida. Nesta empresa de Sísifo a rolar em vez de umbloco o seu próprio corpo — partindo, chegando e partindo— nas voltas constritoras de um círculo demoníaco, no seu28eterno giro de encarcerado numa prisão sem muros, agravadapor um ofício rudimentar que ele aprende em uma hora paraexercê-lo toda a vida, automaticamente, por simples31movimentos reflexos — se não o enrija uma sólida estruturamoral, vão-se-lhe, com a inteligência atrofiada, todas asesperanças, e as ilusões ingênuas, e a tonificante alacridade34que o arrebataram àquele lance, à ventura, em busca dafortuna.

Euclides da Cunha, 1866-1909. Um clima caluniado (fragmento). In: Um paraíso perdido: reunião de ensaios amazônicos. Seleção e coordenação de Hildon Rocha. Petrópolis: Vozes, Brasília, INL (coleção Dimensões do Brasil, v.1), 1976, p. 131-2 (com adaptações).

Texto VI

1 Sobretudo naturalista e positivista, Euclides foirejeitado pelo Modernismo. A retórica do excesso, o registrograndíloquo, o tom altíssono só poderiam ser avessos ao4espírito modernista. Acrescente-se a isso sua preocupaçãocom o uso de uma língua portuguesa castiça e até arcaizante,ao tempo em que Mário de Andrade ameaçava todo mundo7com seu projeto de escrever uma Gramatiquinha da falabrasileira. No entanto, mal sabiam os modernistas que, em10Euclides, contavam com um abridor de caminhos. Asnumerosas emendas a que submeteu as sucessivas edições deOs Sertões, enquanto viveu, apontam para um progressivo13abrasileiramento do discurso. No longo processo de emendarseu próprio texto, a prosódia ia, aos poucos, sobrepujando aortoepia, esta, sim, portuguesa, mostrando que o ouvido do16autor ia desautorizando sua sintaxe e, principalmente, suacolocação de pronomes anterior. Ainda mais, o Modernismo daria continuidade a19algumas das preocupações de Euclides com os interiores dopaís e com a repulsa à macaqueação europeia nos focospopulacionais litorâneos. Partilharia igualmente com ele a22reflexão sobre a especificidade das condições históricas dopaís, na medida em que, já em Os Sertões, Euclides realizaraum mapeamento de temas que se tornariam centrais na25produção intelectual e artística do século XX, ao analisar onegro, o índio, os pobres, os sertanejos, a condiçãocolonizada, a religiosidade popular, as insurreições, o28subdesenvolvimento e a dependência. Aí fincaram suas raízesnão só o Modernismo, mas também o romance regionalista de1930 e o nascimento das ciências sociais no país na década de3140 do século passado. Muitas dessas preocupações não eram,evidentemente, exclusivas de Euclides, mas comuns às elitesilustradas nas quais ele se integrava e das quais se destacou ao34escrever Os Sertões.

Walnice Nogueira Galvão. Polifonia e paixão (fragmento). In: Euclidiana: ensaios sobre Euclides da Cunha. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 28-9 (com adaptações).

Com relação aos sentidos e a aspectos morfossintáticos do texto V e do texto VI, julgue C ou E.

  1. 61.

    A autora do texto VI sugere que Euclides da Cunha deveria ser incluído no elenco de escritores modernistas mais por ter adaptado, em suas obras, o discurso ao falar brasileiro do que por ter tratado de temas típicos do Modernismo.

  2. 62.

    No texto V, as formas verbais “constringe-se” (l.14) e “constrangido” (l.22) podem ser substituídas, respectivamente, por constrange-se e constringido, sem que se altere o sentido dos períodos em que se inserem.

  3. 63.

    No primeiro período do segundo parágrafo do texto V, o autor emprega o sinal de dois pontos, na linha 6, para indicar que pretende dar ênfase a uma assertiva e, na linha 7, para introduzir uma explicação do que considera ser “uma anomalia” (l.6-7).

  4. 64.

    No texto VI, o vocábulo “prosódia” (l.14) designa as características da emissão dos sons na fala, como acento e entonação.

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